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Vídeo: GCM de SP põe joelho no pescoço de homem negro e coloca saco branco perto dele para acusá-lo e prendê-lo por tráfico de drogas

Guarda civil desce de viatura com pacote com pó branco, que é passado a outro agente. Corporação diz que homem foi preso na segunda (30), no Centro. Movimentos sociais desconfiam que agentes ‘plantaram droga’ para incriminar suspeito. A Justiça concedeu na tarde desta terça-feira (31) a liberdade provisória de César Victor Batista por falta de provas.


Vídeo mostra GCM imobilizando homem com joelho no pescoço em SP

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Vídeo mostra GCM imobilizando homem com joelho no pescoço em SP

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) de São Paulo colocando o joelho no pescoço de um homem negro e um saco com pó branco perto dele para acusá-lo e prendê-lo por tráfico de drogas. O caso ocorreu na tarde de segunda-feira (30) na Rua Ana Cintra, na Santa Cecília, Centro da capital. (Assista ao vídeo acima.)

Dois movimentos sociais, a Pastoral do Povo da Rua e o Grupo Tortura Nunca Mais, compartilharam as imagens em suas redes sociais.

Ao g1, seus representantes criticaram a abordagem violenta da GCM e disseram que os guardas teriam “plantado” o entorpecente para incriminar o homem injustamente. Uma testemunha passava pelo local e gravou a cena com celular.

A Justiça de São Paulo concedeu a liberdade provisória de César Victor Batista, de 56 anos, na tarde desta terça-feira (31) por falta de provas. “Analisando detidamente o vídeo apresentado pela Defensoria Pública após o término da audiência de custódia, verifico que o último guarda civil a se aproximar do autuado, já rendido e revistado, sai da viatura com uma sacola branca em mãos, onde aparentemente foram apreendidos os entorpecentes”, diz a sentença.

O que diz a Secretaria de Segurança Urbana

Procurada nesta terça (31) para comentar o assunto, a Secretaria Municipal da Segurança Urbana divulgou duas notas à reportagem (leia abaixo a íntegra de cada uma delas). Na primeira, justificou a abordagem informando que os agentes da GCM fizeram “uso moderado da força, a fim de preservar a segurança dos agentes e do próprio infrator”, que “tentou resistir à prisão”.

Na segunda nota, a pasta da Prefeitura de São Paulo informa que a Corregedoria da GCM vai apurar as denúncias de que os guardas agrediram o homem e teriam forjado o porte de droga. No comunicado, a secretaria informa que “não compactua com desvios de conduta” e que, se ficar comprovada alguma irregularidade, os agentes serão punidos. Não há confirmação se eles foram afastados. Ao menos cinco guardas participaram da prisão.

De acordo com a GCM, os guardas afirmaram que estavam patrulhando a região quando decidiram abordar um “homem com um volume suspeito na altura da cintura”. Segundo os agentes, ele “jogou uma sacola no chão e tentou fugir, mas foi contido pelos agentes.”

Os guardas disseram ainda que depois encontraram a sacola e viram que dentro dela “teria substâncias análogas a entorpecentes”. Além disso, os guardas informaram que apreenderam um balança com o homem. A suspeita é a de que ele usaria o equipamento para pesar drogas.

Agressões

O caso foi registrado no 77º Distrito Policial (DP), Santa Cecília, segundo a pasta. O g1 procurou ainda a Secretaria da Segurança Pública (SSP), responsável pela Polícia Civil, para saber como o caso foi registrado, se o homem continuava preso e qual foi resultado da análise do pó branco. A pasta estadual da Segurança Pública não retornou até a última atualização desta reportagem.

Este é o terceiro caso de suspeitas de agressões envolvendo guardas civis em menos de 5 dias na Grande São Paulo.

Vídeo em detalhes

Vídeo gravado por celular mostra GCMs prendendo homem negro suspeito de tráfico de drogas em São Paulo: Nos círculos é possível ver agente pisando no pescoço dele e outro saindo de viatura com saco com pó branco que foi entregue a outro colega. Esse mostra o pacote para a câmera. Rapaz foi preso por tráfico, mas movimentos sociais criticam abordagem violenta e questionam se entorpecente foi 'plantado' por guardas — Foto: Reprodução/Redes sociais

Vídeo gravado por celular mostra GCMs prendendo homem negro suspeito de tráfico de drogas em São Paulo: Nos círculos é possível ver agente pisando no pescoço dele e outro saindo de viatura com saco com pó branco que foi entregue a outro colega. Esse mostra o pacote para a câmera. Rapaz foi preso por tráfico, mas movimentos sociais criticam abordagem violenta e questionam se entorpecente foi ‘plantado’ por guardas — Foto: Reprodução/Redes sociais

Na filmagem, um dos agentes da Guarda Civil Metropolitana usa o joelho para pressionar o pescoço do homem para imobilizá-lo no chão.

É possível ver o homem reclamar de dores no braço enquanto é contido pelos agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Dá para ouvir a voz de uma mulher dizendo que os guardas são “folgados” e que a pessoa abordada só estava “indo trabalhar”.

Enquanto isso, outro guarda desce da viatura da GCM segurando um saco branco. Ele se aproxima, pisa na perna do homem e o algema. Na sequência, entrega o pacote a um terceiro agente, que diz: “Não tinha nada, filhão? Não tinha nada?”, fala o guarda, enquanto manuseia o saquinho.

Ao perceber que uma pessoa gravava a abordagem, o guarda mostra o pacote e diz para filmar aquilo também: “Aproveita que você está filmando, ó… aqui ó”, fala o agente, mostrando o pacote.

Movimentos sociais

O ex-policial Derek Chauvin pressiona o joelho no pescoço George Floyd, que não resistiu; ação ocorreu em 2020, nos EUA — Foto: Darnella Frazier/BBC

Essa manobra de imobilização com o joelho no pescoço do suspeito foi a mesma que um policial branco usou contra George Floyd e causou sua morte em 2020 nos Estados Unidos. Após uma série de protestos pelo mundo contra a morte do homem negro, esse método de sufocamento foi abolido por forças de segurança de diversos países.

“A técnica de imobilização está correta? Vejam o vídeo com atenção!”, criticou o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, em seu Instagram. Ao lado do texto, ele colocou a filmagem com a abordagem da GCM ao homem negro na região central de São Paulo.

“Aparentemente [os agentes] tentam sufocar [o suspeito]”, disse o advogado Ariel de Castro Alves, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais.

Além de pedir que as autoridades afastem os agentes e apurem as condutas deles na abordagem, padre Júlio e o advogado Ariel querem ainda que seja investigada a possibilidade de os guardas terem “plantado” drogas para incriminar o homem injustamente.

“O vídeo é claro que o saquinho com a droga chega no carro [da GCM]. E o cara [guarda] leva. Você vê claramente. No começo estão revirando as coisas da pessoa [do suspeito] e não acham nada. Depois chega o carro do Iope [Inspetoria de Operações Especiais da GCM] com a droga”, falou padre Júlio. “Esse procedimento é normal dentro das abordagens: plantou o ‘kit droga'”, afirma.

“Pelas imagens, Aparentemente o saquinho, possivelmente com drogas, surge na mão do GCM que chega na ocorrência”, disse o advogado Ariel.

O que dizem os citados

Guarda Civil Metropolitana (GCM) da cidade de São Paulo em foto de 2021 — Foto: Marcelo Pereira/Secom/PMSP

A Secretaria Municipal da Segurança Urbana não respondeu aos questionamentos do g1 sobre qual a identidade do suspeito, se ele continua preso e se a perícia constatou que a substância que ele levava era mesmo droga.

A pasta também não comentou diretamente a filmagem nem se seus guardas são orientados a usar o joelho para pressionar o pescoço de algum suspeito durante abordagem. Tampouco fez comentários diretos sobre a cena que mostra um dos agentes colocando um saco com pó branco perto do homem.

Segue abaixo a íntegra do primeiro comunicado da secretaria sobre a ação da GCM:

“A Secretaria Municipal de Segurança Urbana informa que a Guarda Civil Metropolitana deteve um indivíduo suspeito de tráfico de entorpecentes, nesta segunda (30), na Rua Bela Cintra, centro de São Paulo.

Durante patrulhamento preventivo pelo local dos fatos, uma equipe da GCM abordou um homem com um volume suspeito na altura da cintura. Na abordagem, o suspeito jogou uma sacola no chão e tentou fugir, mas foi contido pelos agentes.

Durante a ação, ele tentou resistir à prisão, sendo necessário a imobilização com o uso moderado da força, a fim de preservar a segurança dos agentes e do próprio infrator. Com ele foi encontrada uma quantidade de substâncias análogas a entorpecentes e uma balança de precisão. Após a detenção, o suspeito foi conduzido até o Distrito Policial.”

Em outra nota encaminhada à reportagem, a Secretaria Municipal da Segurança Urbana informa que a Corregedoria da GCM irá apurar as denúncias feitas pela Pastoral do Povo da Rua e pelo Grupo Tortura Nunca Mais que foram gravadas no vídeo: da suspeita de abordagem violenta contra o homem à possibilidade de que os agentes teriam plantado droga para incriminar o homem:

“A Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU) informa que a Corregedoria Geral da Guarda Civil Metropolitana vai instaurar uma sindicância para apurar os fatos e todas as circunstâncias relativas à ocorrência citada pela reportagem. A SMSU não compactua com desvios de conduta e todos os casos são rigorosamente apurados e, comprovadas irregularidades, os autores são punidos conforme a legislação vigente.

Os agentes envolvidos na ocorrência relataram que, durante patrulhamento, identificaram um indivíduo que, ao avistar os guardas, teria dispensado um pacote e fugido. Os guardas informaram que conseguiram aborda-lo e encontraram uma sacola arremessada pelo homem, que teria substâncias análogas a entorpecentes. Eles também apresentaram uma balança de precisão na ocorrência registrada no 77º DP (Santa Cecília), que investiga o caso. Todos os relatos serão apurados tanto na investigação da polícia quanto na sindicância da Corregedoria da GCM.”

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) informou que o homem foi preso em flagrante por tráfico de drogas. “O indivíduo fugiu de uma abordagem de guardas municipais e foi detido após sofrer uma queda. Com ele foram apreendidas duas pedras grandes e uma pequena porção de uma substância branca, além de uma balança de precisão. Os entorpecentes foram periciados pelo IC, que confirmou se tratar de crack”.

O caso foi registrado como drogas sem autorização ou em desacordo.

Fonte: G1

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