Gastronomia

Na Serra do Cipó

Na Serra do Cipó, restaurante Casulo coloca o Cerrado mineiro no prato

Localizado em Lapinha da Serra, a 140 quilômetros de Belo Horizonte, o restaurante cria um menu com 80% de insumos regionais, baseado em pesquisa e memória

Carolina Daher, colaboração para o Viagem & Gastronomia

Lapinha da Serra ainda parece adormecida. O tempo ali passa devagar diante de um cenário que lembra uma pintura. É época das chuvas, o verde que cobre as montanhas está ainda mais verde e as inúmeras cachoeiras riscam de branco os montes de pedras.

Localizada no circuito da Serra do Cipó, a Lapinha é um distrito de Santana do Riacho, a cerca de 140 quilômetros de Belo Horizonte. O vilarejo ganhou o olhar de quem procura aventura, caminhadas, silêncios e contato com a natureza. As coisas, no entanto, estão mudando naquelas bandas.

Tem gente pegando a estrada de terra – são cerca de 12 quilômetros – para provar literalmente o sabor da Lapinha. A responsável por atrair esse público gastronômico responde pelo nome de Marina Leite. A chef, ao lado do marido, o padeiro e sommelier Guilherme Pedroso, é responsável pelo restaurante Casulo.

Localizado em um terreno alto com vista para a lagoa e para a serra, o Casulo fica em uma casinha branca simpática, com mesas em um deque de madeira à sombra de árvores. Na varanda lateral, tem uma lareira emoldurada por ladrilhos hidráulicos que está sempre acesa nos dias mais frios. Não espere luxo, é um ambiente rústico e vibrante, assim como o menu que Marina lançou recentemente.

Batizado de “Lapinha Memória Viva”, ele é o resultado de mais de dois anos de pesquisa sobre as tradições alimentares do povoado, conversas com moradores mais antigos e mapeamento de insumos típicos como arroz vermelho, pequi, murici, gabiroba e amendoim preto.

“A região não tem um histórico muito variado, pois a agricultura sempre foi de subsistência. Tradicional daqui é a sopa de banana, engrolado de taioba, feijão-de-corda verde, cebola roxa”, diz Marina, explicando que cerca de 80% dos ingredientes utilizados vêm de produtores da própria região, e a equipe do restaurante é formada majoritariamente por moradores locais.

Uma banana que só tem ali

Um dos ingredientes mais representativos é a banana capucha, uma espécie que só existe no Espinhaço. Presente em vários quintais, hoje já não é tão comum. Marina e Guilherme vêm fazendo um trabalho de resgate da fruta, incentivando seu cultivo, abandonado por muitos com o passar dos anos. Lembra a banana-da-terra, com muito mais amido.

No menu, de nove tempos (R$ 295 ou R$ 530 com harmonização de vinhos), a capucha aparece em dois preparos. Primeiro, logo na entrada, em forma da massa das empadinhas recheadas com carne serenada e pimenta cumari; requeijão de raspa, presunto cru, jabuticaba e pequi; coalhada, lambarizinho defumado na lenha, geleia de gabiroba e murici; patê de fígado de galinha com tamarindo.

Depois, é a base de um angu servido com frango caipira, broto de embaúba e barriga de porco defumada – sem dúvidas, um dos melhores pratos do cardápio. Ingredientes do Cerrado ganham novos olhares, como é o caso do jatobá, que vem em forma de nhoque, almôndegas de cordeiro, cebola roxa, vinho de jabuticaba e coalhada seca.

“Trabalhamos com o cordeiro de um vizinho, que os cria a base de macaúba. Então, a carne tem um sabor muito especial”, explica a chef. Outro grande momento é a sobremesa. Marina prepara um sorvete de geleia de mocotó frito com amendoim preto, café, rapadura e fubá.

Gelateria e risoteria

Aos 35 anos, Marina andou um tanto antes de entender que seu lugar era a Lapinha, terra de sua bisavó Maria Augusta, responsável por mais de 500 partos na região. Quando menina, morou na França. A mãe, professora, foi fazer um doutorado no país. Adolescente, a chef começou o curso de Ciências Sociais e foi morar em uma comunidade anarco-punk no Rio Grande do Sul. Depois do nascimento da primeira filha, Maitã, voltou para casa.

Nos primeiros meses na Lapinha, passou a vender alguns salgadinhos na feirinha aos sábados. Logo depois, engravidou novamente. Foi quando resolveu abrir as portas de sua casa para receber os clientes. Começou com uma cafeteria e, logo em seguida, uma gelateria. Durante o inverno, criou um risoto para não perder a clientela.

O restaurante ganhou o título de gelateria e risoteria. Mas Marina não estava feliz. Queria fazer sorvete natural, sem conservantes e outros elementos químicos. “Para mim, virou um sofrimento vender risoto de gorgonzola com filé”, diz a chef.

Aos poucos, conseguiu ir mudando sua história. Primeiro, desenvolveu uma receita de sorvete usando apenas leite de ovelha, vindo dali da região, sem aditivos químicos e industrializados. Entraram em cena também as frutas do Cerrado e os sabores variam de acordo com o tempo da natureza.

Tirou o arbóreo e o substituiu pelo arroz vermelho plantado na Lapinha. São nove opções, entre eles o Dona Zélia, risoto de abóbora, requeijão de raspa, peixinho de horta e molho picante de cebola roxa (R$ 95); e o Do Rancho, costela de porco caipira, melado de cana, jiló defumado e risoto de casca de jabuticaba (R$ 146). Há ainda outras sugestões como o Stinco de cordeiro, angu de banana algodão e ervas do Cerrado (R$ 159).

Comer, amar e ficar

Depois de mais de uma década à frente do projeto, Marina e Guilherme seguem ampliando os horizontes do Casulo. Em 2026, a casa abriu a Casa Sempre Viva, uma hospedagem voltada ao turismo de experiência que reforça o compromisso com a gastronomia, arte e natureza como pilares de um projeto cultural enraizado no Cerrado.

Com um olhar sensível sobre as tradições, Marina Leite vem se tornando uma das vozes mais originais da nova gastronomia brasileira, falando ao mesmo tempo com o território, com os ingredientes e com as pessoas que preservam memórias alimentares essenciais. Uma cozinha moldada pela geografia, história e memória.

Restaurante Casulo
Rua Olhos d’Água, 01 – Lapinha da Serra, Santana do Riacho – MG / Tel.: (31) 98408-0368 / Horário de funcionamento: de terça à quinta-feira, das 12h às 21h; sexta, das 18h30 às 22h30; sábado, das 12h às 22h30; domingo, das 12h às 21h / Mais informações no Instagram.

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Carolina Daher

Carolina Daher é jornalista, pesquisadora e curadora gastronômica. Acima de tudo, é mineira. Adora comida, mesa farta e café coado com queijo. Não dispensa o que vem da roça e se encanta com as coisas da cidade grande. Acha que doce de leite é muito melhor que Nutella. Vive nas Gerais e caminha pelo mundo em busca de histórias e sabores. Também é colunista da Revista Encontro, curadora do Fartura — Comidas do Brasil e responsável pela Encontro Gastrô, maior premiação gastronômica de Belo Horizonte e Brasília.


Fonte: CNN

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