Bianca Mirabili e Tássia Magalhães: quem são as chefs brasileiras que conquistaram a América Latina
Bianca Mirabili e Tássia Magalhães: quem são as chefs brasileiras que conquistaram a América Latina
Premiadas pelo Latin America’s 50 Best, a confeiteira do Evvai e a chef do Nelita discutem autoria, processo criativo e os rumos da gastronomia brasileira
Quando duas mulheres brasileiras sobem ao mesmo palco para receber os principais reconhecimentos da gastronomia latino-americana, não se trata de coincidência – é sinal de mudança de era. Em dezembro de 2025, em Antígua, na Guatemala, Bianca Mirabili, 29, foi anunciada como a melhor chef confeiteira da América Latina; Tássia Magalhães, 36, como a melhor chef mulher da América Latina. Duas trajetórias distintas, dois restaurantes, duas cozinhas – e um mesmo ponto de convergência: a obsessão pelo detalhe, pela autoria e pela construção de uma linguagem própria.
Mais do que conquistas individuais, os reconhecimentos apontam para um movimento maior: o de uma geração de chefs brasileiras que vem posicionando o Brasil no mapa da gastronomia internacional – com identidade, pesquisa, autoria e, sobretudo, consistência.
Se Tássia desenha pratos que equilibram delicadeza e contundência no Nelita (SP), Bianca transforma a confeitaria do Evvai (SP) em um território de pesquisa, memória e rigor técnico. Juntas, movidas por inquietações semelhantes, ainda que sem dividir a mesma cozinha, elas ajudam a contar uma nova história da gastronomia brasileira: mais autoral, mais diversa e, finalmente, protagonizada por mulheres.
Para esta reportagem, a proposta foi inverter o jogo: em vez de responderem às nossas perguntas, foram elas que conduziram a conversa. Tássia fez as perguntas que sempre quis fazer a Bianca – e Bianca fez as suas para Tássia. Um bate-bola direto em que duas das vozes premiadas da gastronomia latino-americana refletem sobre criação, processo e futuro, cada uma a partir do seu próprio lugar na cozinha.
De Tássia para Bianca:
Tássia Magalhães: Quando você entrou na gastronomia, a confeitaria ocupava um lugar muito diferente do que vemos hoje. Como você enxerga essa transformação ao longo da sua trajetória? E o que ainda precisa evoluir?
Bianca Mirabili: Quando comecei, a confeitaria era muitas vezes vista como um complemento do menu, com menos espaço para autoria e protagonismo. Ao longo dos anos, vejo uma transformação importante: mais técnica e uma valorização maior do trabalho do confeiteiro dentro da experiência gastronômica. Ainda assim, acredito que precisamos avançar no reconhecimento profissional, na formação de equipes e na compreensão da confeitaria como parte fundamental da cozinha, e não apenas como o momento final da refeição.
Tássia: Sua confeitaria tem uma identidade muito clara. Como você construiu essa linguagem própria e o que mais influencia seu processo criativo hoje?
Bianca: Essa linguagem foi construída ao longo do tempo, com estudos, pesquisas, viagens e meu próprio amadurecimento. Sempre buscamos um equilíbrio com a cozinha do restaurante. Hoje, o que mais influencia meu processo criativo é o conceito do Evvai, o ingrediente em si, e trabalhar com ele de uma maneira que o evidencie.
Tássia: O prêmio de Melhor Confeiteira da América Latina também traz um papel de representatividade. O que esse reconhecimento reforça na sua responsabilidade como líder em um setor da cozinha onde há tantas mulheres?
Bianca: Esse reconhecimento reforça, antes de tudo, a responsabilidade que as confeiteiras carregam dentro de um restaurante. A confeitaria é um espaço cada vez mais ocupado por mulheres, e acredito que meu papel é contribuir para ambientes mais justos, colaborativos e respeitosos. Mais do que representar, vejo esse momento como uma oportunidade para incentivar outras mulheres a entrarem em uma cozinha profissional.
De Bianca para Tássia:
Bianca Mirabili:Como você enxerga a evolução da cozinha autoral brasileira hoje, e qual acredita ser o papel dos chefs nesse movimento?
Tássia Magalhães: Eu vejo a cozinha autoral brasileira vivendo um momento muito interessante: mais madura, mais consciente e menos preocupada em provar algo o tempo todo. Durante muitos anos, parecia que precisávamos traduzir o Brasil em símbolos óbvios, ingredientes específicos, narrativas muito “explicadas”. Hoje, sinto que existe uma liberdade maior para construir identidade com nuance, com técnica e profundidade, sem recorrer ao estereótipo.
Acho que o papel dos chefs nesse movimento é duplo. Primeiro, pesquisar com seriedade: entender o ingrediente, a origem, quem produz, o contexto cultural. Mas também ter responsabilidade: com a forma como nos relacionamos com os territórios, com os produtores e com as equipes. A cozinha autoral não pode ser apenas estética; ela precisa ser coerente com o mundo que queremos construir.
Bianca: Quais caminhos, pesquisas e projetos você deseja aprofundar a partir de agora, depois dessa conquista?
Tássia: Essa conquista amplia a visibilidade, mas não muda o que me move. Continuo interessada em aprofundar repertório e linguagem, especialmente na interseção entre técnica e emoção, que é onde sinto que a comida realmente ganha força. Quero seguir pesquisando ingredientes brasileiros com mais profundidade, mas não apenas como “elemento exótico”: como matéria-prima sofisticada, capaz de sustentar alta gastronomia com identidade e complexidade.
Também tenho vontade de explorar novos formatos que mantenham o nível de cuidado do Nelita, mas que permitam outras experiências – seja no diálogo com vinho, com o mercado ou com produtos artesanais. E, claro, seguir investindo no crescimento das pessoas que trabalham comigo. Hoje, isso se tornou um dos meus principais focos: formar, abrir caminhos, criar estruturas para que outras mulheres cresçam junto.
Bianca: Você foi, senão a pioneira, uma das primeiras chefs a trabalhar com uma cozinha formada 100% por mulheres. Além da representatividade, de que forma uma cozinha formada apenas por mulheres pode contribuir para criar mais oportunidades e fortalecer a presença feminina na gastronomia?
Para mim, uma cozinha 100% feminina não é apenas um conceito, é uma estrutura concreta de oportunidade. Historicamente, as mulheres sempre estiveram na gastronomia, mas muitas vezes em posições invisíveis ou limitadas. Quando você cria uma brigada só de mulheres, não está apenas representando: está garantindo espaço real de formação, liderança e desenvolvimento técnico.
Isso muda a dinâmica interna e também o futuro dessas profissionais. Não é apenas sobre estar ali, é sobre crescer ali dentro: assumir responsabilidades, aprender a liderar, ganhar confiança e construir carreira. E isso tem um efeito multiplicador: mulheres que crescem em um ambiente como esse tendem a abrir portas para outras, criar redes, ocupar mais espaços e transformar a cultura do setor com mais consistência.
Fonte: O Tempo

