Educação

Vivi para contar: ‘Vi que era possível e fui atrás’, diz jovem que ganhou bolsa de R$ 2,2 milhões para estudar fora

Por 

Ana Carolina Rangel*

RESUMO

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Eu estava em Aparecida (SP) quando a notícia chegou. Sabia que era a semana em que a resposta viria, e botei nas mãos de Deus. Assim que eu cheguei lá, o resultado saiu e liguei para casa. Meu pai chorou um pouquinho. Minha mãe ficou em choque e depois disse que sabia que eu ia conseguir. Depois de me formar numa escola pública de Campos (RJ), estou indo este mês para Northampton (EUA) estudar Economia com concentração em finanças internacionais na Smith College com uma bolsa de R$ 2,2 milhões.

Ao longo da pandemia, me interessei em empreendedorismo social, especificamente em espalhar educação financeira. Passei a enxergar isso como uma forma de levar empoderamento para meninas em posições socioeconomicamente vulneráveis. Há um tabu em cima disso. Acabam não aprendendo porque acham que não é para elas e que não podem sonhar com oportunidades diferentes. Trabalhar pela democratização desse tema é uma forma de ajudar minhas amigas e outras pessoas com realidade parecida com a minha.

Por causa disso, comecei a fazer o curso técnico em Administração na Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) na minha cidade. Também me envolvi e cheguei a assumir a diretoria regional da ONG Tocando em Frente, que faz um trabalho no país inteiro em escolas públicas com crianças e adolescentes com esse tema. Além disso, conheci a Bia Santos, a CEO de uma startup que dissemina educação financeira. Ela me apresentou ao programa Jovens Embaixadores, uma iniciativa do Departamento de Estado dos EUA.

Na época meu inglês nem era tão bom, mas enxerguei como algo para criar novas conexões. Me inscrevi e passei. Essa foi a primeira vez que saí do Brasil. Fui para Washington e Tulsa, Oklahoma. Nesse intercâmbio consegui expandir meus horizontes e vi novas possibilidades para mim.

Visitei uma universidade e percebi que poderia testar mais coisas fazendo uma graduação nos EUA do que no Brasil. Lá também conheci o EducationUSA, uma iniciativa do Departamento de Estado norte-americano para orientação acadêmica, que me deu apoio técnico e financeiro para conseguir a bolsa. Eles pagaram a prova de proficiência para mim, alguns documentos que precisam, mas o mais importante mesmo foi o suporte de pessoas que conheciam o processo.

Toda a seleção para conseguir a bolsa levou um ano. Nesse tempo, meus pais passaram por uma montanha-russa. No começo, eles ficaram um pouco receosos e perguntavam: “Tem certeza que quer estudar tão longe? Tem universidade aqui também”. Mas depois que eu enviei a aplicação e eles viram que eu me dediquei muito, que era importante para mim, eles compraram a briga. Teve um momento que eu achei que não conseguiria passar, fiquei meio para baixo, e eles me incentivaram. Quando a notícia saiu, já tinham aceitado completamente. Na minha última semana no Brasil, vez ou outra rolou uma emoção lá em casa.

A bolsa que eu ganhei vai cobrir todos os meus gastos. Isso inclui o valor da mensalidade (que lá se paga por semestre), a moradia, a alimentação, o transporte, tudo. O dinheiro nem vai para mim. Não vou precisar de nada lá e se eu quiser vou poder trabalhar em algum escritório de lá para ter essa experiência ou buscar um estágio fora da universidade.

Turma de mulheres

Mas o que eu quero lá é explorar as disciplinas que vou ter acesso. A Smith College concentra muitas coisas que são importantes para mim. Queria estar próxima de uma cidade grande, mas não queria morar em uma. E o campus lá é perto de Boston. Além disso, ela faz parte de um consórcio com outras universidades em cidades próximas. Isso me dá possibilidade de fazer networking, conhecer mais gente, estudar temas diferentes.

E a Smith College é uma universidade só para mulheres. A área de Economia acaba sendo muito dominada por um público mais masculino. Quando a mulher entra numa sala de tomada de decisão, antes de ter que provar a ideia dela, precisa provar por que ela pode estar ali. Numa sala de aula de alguns cursos também é assim.

Em turmas que são dominantemente masculinas, em áreas como Economia, até a visão do professor é a de que a menina precisa de um empurrãozinho. A ideia de estar numa sala de aula em que essa não fosse uma preocupação me animou bastante para ir para lá. E eu posso ter a experiência de uma turma maior nas outras universidades do consórcio. Elas são no mesmo estado, em cidades próximas, e a universidade faz o transporte dos alunos.

Nesse tempo que estiver lá, quero testar muita coisa. Me chama muita atenção a área de consultoria estratégica, trabalhar com outras empresas entendendo os problemas delas e pensar novas abordagens. Estou com a mente bem aberta.

E também estou muito animada para me conectar com os outros alunos internacionais. Em Campos, não tenho contato com pessoas de fora e quero muito entrar em contato com novas culturas, novas visões de mundo, novas formas de resolver problemas. Entender como as pessoas percebem a situação me deixa muito animada, participar dos clubes da universidade e viver o Halloween nos EUA (risos). Estou muito ansiosa.

Depois de me formar, quero entender as possibilidades que vou ter aqui até de continuar estudando. Mas penso em um dia voltar ao Brasil para devolver tudo que estou vivendo. O empreendedorismo social me move bastante. Me vejo voltando, trabalhando em causas parecidas com as que me fizeram chegar aqui hoje.

*em depoimento ao repórter Bruno Alfano.

Fonte: OGlobo

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