Brasil se surpreende com cautela dos EUA sobre minerais críticos em reunião
Interlocutores avaliam que Washington adotou postura menos predatória para evitar ruídos sobre soberania

Os Estados Unidos vêm demonstrando menos pressa em debater minerais críticos com interlocutores brasileiros, segundo relatos de membros da gestão federal.
Até mesmo na conversa presidencial da última quinta-feira (7), Donald Trump deu menos ênfase ao assunto do que esperava a comitiva que acompanhou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Casa Branca.
A avaliação de interlocutores que acompanham as negociações entre os dois países é que a postura americana pode ter duas leituras principais.
A primeira é diplomática. Integrantes do governo brasileiro avaliam que Washington buscou se apresentar de forma menos predatória em um tema considerado sensível para o Brasil.
Minerais críticos, especialmente terras raras, lítio, níquel, cobre e nióbio, passaram a ser tratados por Brasília como ativos estratégicos de soberania nacional.
Nesse contexto, uma pressão direta dos Estados Unidos poderia reforçar a percepção de que os americanos estariam interessados apenas em garantir acesso a matérias-primas brasileiras, sem compromisso com agregação de valor, industrialização local e transferência tecnológica.
A segunda leitura é econômica. Na avaliação de fontes envolvidas nas conversas, parte relevante do redesenho da cadeia produtiva já estaria ocorrendo naturalmente, sem a necessidade de uma ofensiva política explícita de Washington.
Isso porque o setor de minerais críticos no Brasil é hoje dominado, em grande medida, por empresas ocidentais ou por companhias ligadas a cadeias de financiamento e fornecimento dos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Austrália e Europa.
Na prática, essa composição já aproxima os principais projetos brasileiros de potenciais clientes ocidentais.
Para interlocutores do setor, o “cliente natural” dos minerais críticos produzidos no Brasil tende a ser formado por países que buscam reduzir a dependência da China em áreas como defesa, veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, baterias e ímãs permanentes.
Contratos de offtake — acordos em que um comprador se compromete a adquirir parte ou a totalidade da produção futura de um projeto — ajudam a viabilizar o financiamento das minas e já direcionam parte da produção brasileira para cadeias internacionais fora da órbita chinesa.
Um exemplo recente é a compra da Serra Verde, mineradora brasileira de terras raras, pela americana USA Rare Earth. O negócio, avaliado em US$ 2,8 bilhões, foi apresentado pelas companhias como parte da criação de uma cadeia integrada de terras raras, da mineração à produção de ímãs, com operações no Brasil, nos Estados Unidos, na França e no Reino Unido.
Para empresários brasileiros, acordos desse tipo ajudam a explicar a menor urgência americana no plano político.
A leitura é que, se empresas ocidentais já estão financiando, comprando ou amarrando contratos de fornecimento com projetos brasileiros, parte da reorganização da cadeia fora da órbita chinesa já estaria em curso.
Ainda assim, membros do governo brasileiro afirmam que o ponto central para Brasília não é apenas atrair capital estrangeiro para a mineração, mas garantir que os investimentos venham acompanhados de agregação de valor no país.
Nas conversas com os Estados Unidos, o Brasil tem defendido que eventuais parcerias em minerais críticos incluam transferência tecnológica, processamento local e participação brasileira em etapas mais sofisticadas da cadeia, como separação, refino, produção de metais, ligas e componentes industriais.
A preocupação é evitar que o país se consolide apenas como fornecedor de concentrados ou produtos intermediários, enquanto as etapas de maior valor agregado permanecem no exterior.
Paralelamente, representantes americanos vêm manifestando interesse explícito em investir em capacidades de separação de óxidos de terras raras no Brasil. A ideia em discussão é apoiar a construção de uma estrutura industrial de refino que permita ao país avançar além da extração.
A reunião entre Lula e Trump durou cerca de três horas e tratou de temas como comércio, tarifas, segurança, crime organizado e minerais críticos.
Apesar de o tema mineral ter sido mencionado, interlocutores brasileiros dizem que a ênfase americana ficou abaixo do esperado, especialmente diante dos sinais anteriores de interesse dos Estados Unidos em financiar projetos no Brasil.
Nos bastidores, a avaliação é que os americanos continuam interessados nos ativos brasileiros, mas podem ter optado por uma abordagem mais cautelosa.
A estratégia, segundo essa leitura, seria evitar ruídos sobre soberania e deixar que o próprio mercado avance na integração dos projetos brasileiros às cadeias ocidentais.
Fonte: CNN

