quinta-feira, março 12, 2026
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Meio Ambiente

Meio ambiente e agricultura sofrem com a ação dos javalis

Ibama defende abate controlado, Agapan prega o extermínio dos animais

Ibama realiza monitoramento de danos socioambientais promovidos por javali
Ibama realiza monitoramento de danos socioambientais promovidos por javali | Crédito: Adobe Stock

A agricultura e as lavouras de milho, soja e outras culturas, e pomares das regiões da Fronteira Sul do Estado, Sudoeste, Campanha, Nordeste, Central e Campos de Cima da Serra do Rio Grande do Sul estão enfrentando prejuízos e danos provocados pela invasão e proliferação de javalis. Em alguns casos as perdas chegam a 40% da produção. Conforme os Relatórios de Manejo do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do ano de 2025, é possível constatar que os prejuízos para a agricultura e o meio ambiente estão distribuídos em cerca de 200 municípios, com o município de Alegrete figurando no topo. Estas localidades são denominadas de criadouros ou de maior densidade de javalis no Rio Grande do Sul.

Espécie exótica invasora no Brasil, introduzida a partir do início do século 20 na América do Sul e com grande expansão a partir dos anos 1980, principalmente através da criação para abate e da fuga de animais de criadouros, os javalis são procedentes do Uruguai e da Argentina e anteriormente de outros continentes.

Eles se adaptaram ao ambiente brasileiro devido à ausência de predadores naturais e causam sérios danos também à agricultura. Como abater animais é sempre assunto polêmico, o Ibama lançou a normativa nº 12 em 2019, não permitindo a caça indiscriminada, mas autorizando o controle do animal sob condições específicas e reguladas.

Conforme a instrução, considera-se controle do javali a perseguição, o abate e a captura seguida de eliminação direta de espécimes, realizado por meios físicos, como armas brancas e de fogo, sendo vedada a prática de quaisquer maus-tratos aos animais, conforme o departamento técnico do instituto.

Fica autorizado também o uso de armadilhas do tipo jaula ou curral, que garanta o bem-estar animal, segurança e eficiência. Também é admitido o uso de cães na atividade de controle, devendo o abate ser de forma rápida, sem que provoque o sofrimento desnecessário aos animais, vedada também qualquer prática de maus-tratos.

O javali foi introduzido com a promessa de tornar-se uma iguaria culinária e gastronômica, além de uma criação e consequentemente uma alimentação alternativa mais em conta. Entretanto, conforme ocorreu com outras espécies exóticas introduzidas, os exemplares acabavam escapando, fugindo e muitos foram soltos pelos próprios criadores, além do transporte ilegal de exemplares para prática de caça em outros locais ainda não povoados.

Assim, os javalis se tornaram ameaça a toda a sanidade animal do Estado, conforme informa a Secretaria Estadual de Agricultura, em razão das inúmeras doenças que podem carregar e que acometem tanto a população de animais silvestres quanto a de domésticos, além de rebanhos de gado, transmitindo doenças como a peste suína clássica e a febre aftosa em porcos e bovinos.

No mesmo contexto, destaca-se que os javalis podem ser portadores de doenças que acometem também os seres humanos. Dessa maneira, a o órgão estatal não recomenda o consumo desses exemplares, sob nenhuma de suas formas.

O biólogo paulista Richard Rasmussen, 56 anos, formado pela Universidade Ibirapuera, diz que o javali teve forte expansão no Brasil a partir da região Sul. Cita o cruzamento do javali com porcos domésticos, originando o javaporco, espécie híbrida que se reproduz e se adapta ao ambiente brasileiro.  Afirma que os javalis são onívoros agressivos (comem tudo que aparece pela frente) e destroem a vegetação nativa, devoram ninhadas de outros animais e aves e competem com a fauna nativa.

Há um consenso entre entidades agropecuárias de que, para 2026, o abate de mais de 1,25 milhão de javalis será necessário para tentar conter o avanço da espécie. Pesquisas sugerem que uma estratégia que inclua o aumento do abate de fêmeas em 50% a 70% pode ajudar a reduzir a população e a variabilidade genética ao longo do tempo. Conforme mapeamento oficial, mais de 1,2 milhão de javalis foram abatidos nos estados brasileiros nos últimos cinco anos, segundo o Ibama. A informação é da coordenadora-geral de Gestão, Uso Sustentável e Monitoramento da Biodiversidade de Fauna (CGFau) da instituição, Gracicleide dos Santos Braga.

Que animal é esse?

O javali ou javali-euroasiático, também conhecido como javardo, porco-bravo, porco-monteiro, porco-selvagem-euroasiático e porco-montês, é um animal artiodáctilo*. Tem ampla distribuição geográfica, sendo nativo da Europa, Ásia, Ilhas Sonda e Norte da África e foi introduzido na América do Sul no início do século 20.

Uma fêmea pode gerar de duas a três gestações por ano, com ninhadas de 10 filhotes em média, podendo chegar a até 25 filhotes, favorecendo uma rápida expansão da população. Estudos indicam que o javali se adaptou a diferentes biomas ao redor do mundo, desde desertos até regiões de frio extremo, dificultando qualquer estratégia de erradicação.

Além disso, a baixíssima presença de predadores naturais proporciona o crescimento exponencial da espécie. O peso desses animais poderá variar bastante, dependendo do grau de cruzamento com suínos domésticos.

Um javali adulto, sem cruzas, pesa geralmente entre 90 kg e 150 kg, alguns machos podem chegar até 180 kg e as fêmeas normalmente são menores, variando entre 60 e 120 kg. Já animais com algum grau de cruzamento, os chamados suínos asselvajados ou javaporcos, estima-se que podem pesar até mais 200 kg. As dimensões variam entre 90 e 200 cm (adulto, sem cauda). O comprimento da cauda fica entre15 e 40 cm (adulto).

As javalis fêmeas atingem a maturidade sexual por volta dos oito a 10 meses de idade e podem reproduzir-se facilmente a partir daí. Os filhotes nascem com listras claras no pelo, um padrão de camuflagem que desaparece gradualmente até cerca dos três meses de idade.

O javali, conforme o Ibama, é classificado como uma das cem piores espécies exóticas invasoras do mundo pela União Internacional de Conservação da Natureza. Sua agressividade e facilidade de adaptação são características que associadas à reprodução descontrolada e à ausência de predadores naturais, provocam em uma série de impactos ambientais e socioeconômicos, principalmente para pequenos agricultores.

* Artiodáctilos são uma ordem de mamíferos ungulados (com cascos) que se caracterizam por terem um número par de dedos(dois ou quatro) nas patas, como bois, porcos, veados, camelos, girafas e hipopótamos, sendo um grupo diverso e com maioria herbívora, além de um sistema digestivo especializado para processar vegetação.

Ibama /Agapan

O Ibama esclarece que a rápida difusão territorial do animal, a sua nocividade e alta capacidade reprodutiva exige o seu controle populacional. O controle da espécie foi autorizado pelo Ibama em 2013, de acordo com regras estabelecidas pela Instrução Normativa 03/2013, que decretou a nocividade e autorizou o controle populacional da espécie.

A Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) avança na questão. O biólogo e diretor científico da entidade, Francisco Milanez, diz que não basta apenas controle, “tem que exterminar. Isso mesmo, exterminar, não confundir com controle.” Para ele, está é uma prioridade máxima e exige rapidez. “Os javalis lavram tudo. Não poupam nada. É um risco até para as pessoas pela sua ferocidade e pela selvageria completa. Infelizmente tem que exterminar. O meio ambiente sofre demais com a ação deles”, ressalta.

O Ibama, porém, pensa nas leis e nas suas aplicações. Por exemplo, em 04 de abril de 2019 publicou no Diário Oficial da União a Instrução Normativa n° 12/2019, que instituiu o Sistema de Informações de Manejo de Fauna (Simaf) para monitoramento das atividades de manejo do javali, aprimorando a IN n° 03/2013. E, junto com a Portaria Interministerial nº 232/17, que instituiu o Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Javali (Sus scrofa) no Brasil, são as normativas específicas que regulamentam a gestão e o controle desta espécie exótica invasora.

Há regramentos que regulam o controle do javali, onde emprego de produtos e de atividades não permitidas podem resultar em infrações ambientais, passíveis de autuação e cobrança de multa. Assim é proibido:

• Uso de armadilhas letais ou capazes de ferir o animal, pois além de causar maus tratos aos javalis, o que é expressamente proibido, pode atingir e ferir outras pessoas ou outros animais.

• Emprego de veneno, uma vez que pode intoxicar e até mesmo matar pessoas, animais silvestres e domésticos, além de contaminar o meio ambiente.

• Uso de óleo queimado para atrair javalis, porque pode ocorrer contaminação ambiental, do solo, da água, afetando as pessoas, os animais e plantas do local.

• Realização do controle de javalis próximo de rodovias. São proibidas a perseguição, a apanha ou a captura de javalis a menos 500 metros de cada lado do eixo de qualquer via térrea ou rodovia pública, pois pode colocar em risco a sua vida e a de outras pessoas.

• Controle de javalis com armas de fogo próximo de rodovias. Também não são permitidas a perseguição, a apanha ou a captura de javalis com armas de fogo a menos três quilômetros de cada lado do eixo de qualquer via térrea ou rodovia pública. Isso pode colocar em risco a sua vida e de outras pessoas.

• Transporte de indivíduos vivos, pois pode-se espalhar problemas e doenças dos javalis para outros locais (tal proibição consta das normas vigentes).

• Distribuição e comercialização dos produtos e subprodutos de javalis.

Gastronomia

Não se iluda. Carne de javali é um perigo, causa doenças, mas pode, sim, servir de alimentação, apesar de todas as recomendações em contrário, desde que seja preparada com todo o rigor e por muitas horas para eliminar qualquer problema. É preciso passar por normas sanitárias minuciosas. A carne de javali selvagem, segundo orientam biólogos, sanitaristas e até nutricionistas, quando não seguidas as devidas regras, pode transmitir doenças.

Mas há uma decisão oficial sobre isso. Conforme informa a Divisão Técnico-Ambiental do Ibama/RS, o Manual de Boas Práticas para o Controle de Javali, não é recomendado o consumo da carne do javali nem por pessoas e nem pelos cachorros. Isso pode contribuir para espalhar doenças para pessoas, animais silvestres e domésticos, incluindo os animais de produção. “Nesse ponto, sugerimos o contato com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Suínos e Aves, que dispõem de estudos e dados concretos sobre o consumo de carne de javalis”, informou o órgão.

O animal foi introduzido no Brasil com a promessa de tornar-se uma iguaria culinária e gastronômica, além de uma criação e consequentemente uma alimentação alternativa mais em conta. Entretanto, conforme ocorreu com outras espécies exóticas introduzidas, os exemplares acabavam escapando, fugindo e muitos foram soltos pelos próprios criadores, como ocorreu em Vacaria, onde uma grande empresa soltou no campo os animais, como relatou um produtor rural. O transporte ilegal de javalis para prática de caça em outros locais ainda não povoados também não é permitido.

Assim, os javalis se tornaram ameaça a toda a sanidade animal do Estado, visto que podem carregar muitas doenças que acometem tanto a população de animais silvestres quanto a de domésticos. No mesmo contexto, destaca-se que os javalis podem ser portadores de doenças que acometem também os seres humanos. Dessa maneira, o Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) não recomenda o consumo desses exemplares, sob nenhuma de suas formas.

Entre as doenças transmitidas pelos javalis estão a toxoplasmose (infecção, febres, dores generalizadas), zoonóticas (passadas por animais e causam vírus, bactérias e fungos), salmonelose (diarréia, dores abdominais, calafrios, cansaço, vômitos) e leptospirose (dores musculares intensas, febres altas, vômitos, insuficiência renal e icterícia).

Mesmo seguindo todas as normas exigidas pelos órgãos sanitários é arriscado comer carne do animal, mas ainda há quem insista. O principal é garantir a procedência e o cozimento completo, atingindo uma temperatura interna segura para matar quaisquer parasitas.

Cozimento:  É fundamental que a carne seja cozida a uma temperatura interna alta e segura. Para cortes inteiros, o ideal é atingir mais de cinco horas de cozimento. É crucial que o animal seja eviscerado e limpo imediatamente após o abate para evitar contaminações.

Procedência: Consuma apenas carne de origem controlada. A criação de javalis para consumo é permitida, mas a caça de javalis selvagens requer licença e acompanhamento profissional.

Dicas de preparo: Devido à sua textura e sabor, a carne de javali pode se beneficiar de preparos mais longos e lentos, como o cozimento em panela elétrica, ensopados ou churrascos de paleta.

Sabor: A carne de javali tem um sabor suave e é considerada magra, com menos calorias, gordura e colesterol que a carne de porco comum.

Receitas: A carne de javali é versátil e pode ser usada em diversas receitas, como massas, escondidinhos e assados.

Conclusão: É seguro comer carne de javali, mas apenas se for manuseada, preparada e cozida corretamente para garantir que todos os riscos à saúde sejam eliminados. A caça legalizada e a procedência de fazendas registradas são a melhor garantia de segurança.

Porto Alegre

Porto Alegre já teve restaurantes especializados em carnes exóticas (como rãs, javalis, tubarão e outras) no Mercado Público. Mas desapareceram pela pouca procura. Hoje, pode-se encontrar carne de javali em lugares especializados como: Restaurantes de culinária especializada/carnes Exóticas: Estabelecimentos com foco em carnes de caça ou pratos diferenciados têm maior probabilidade de incluir javali em seu cardápio, seja de forma regular ou sazonal.

Empórios e Distribuidores de Carnes: Algumas empresas em Porto Alegre, como a Kozinha Carnes Exóticas no Instagram ou o Quintal de Casa – Amazem de Carnes (uma butique de carnes), podem não ser restaurantes no sentido tradicional, mas podem fornecer a carne para preparo próprio ou ter parcerias com restaurantes que a preparam. Nesses locais, você pode obter informações sobre a disponibilidade da carne.

Restaurantes de Alta Gastronomia: Chefs de restaurantes sofisticados, que se especializam em carnes e pratos uruguaios, às vezes oferecem pratos especiais com carnes menos comuns.

Recomendação: Devido à natureza da carne de javali, é altamente recomendável ligar para o restaurante com antecedência para confirmar se o prato está disponível no dia da sua visita, pois o cardápio pode variar.

Caçadores de Javalis

Sim, javalis são encontrados em Vacaria (RS), e a presença da espécie tem sido alvo de discussões e controle devido aos impactos na agricultura. Há registros de caçadas na região, principalmente em áreas de lavoura, como de soja e milho, e também em pomares, onde os animais se concentram. Relatos e vídeos mostram a ocorrência de javalis e javaporcos em propriedades rurais da região. A questão da presença dos javalis tem sido debatida em audiências públicas para buscar soluções para seu controle e manejo.

O comerciante Celso Benedetti, 73 anos, é um especialista em vender armas especiais para a caça de javalis, em Vacaria (RS). A região, forte em pecuária e agricultura, é infestada destes animais selvagens. Ele diz que as armas adequadas para o abate de javalis são as de calibre 12 ou 20. Afirma que as armas 357 tem alto poder letal em pequenas distâncias. Recomenda também o fuzil 308 e Magnum 300, mas diz que as de calibre 12 são as mais negociadas.

Celso salienta que a sua loja segue as regras oficiais para vender armas e exige dos compradores todos os registros necessários. O comprador precisa comprovar idoneidade moral, apresentar CNPJ de propriedade rural eventualmente atacada por este animal, registrar papéis na Polícia Federal, enfim cumprir toda a burocracia para o porte de armas. A sua empresa, Macedônia Caça e Pesca, é uma das raras especializadas em Vacaria.

– Tenho pomares de frutas e seguidamente as macieiras, pessegueiras e ameixeiras são atacadas, praticamente arrasadas. Tenho que me prevenir contra a destruição. Os javalis arrancam tudo: raízes, caules, frutas. Destroem a tua plantação. E atacam em manada. Os ataques são feitos sempre ao anoitecer e durante as madrugadas. Estes bichos atacam também animais (ovelhas, cachorros, bois). Não têm perdão. É preciso estar sempre vigilante para não perder toda a plantação.

Benedetti diz que os javalis também causam danos ambientais, como erosão do solo. A prática da caça está legalizada desde 2013. Ele diz também que a caça é permitida apenas em propriedades privadas, com autorização do proprietário e dentro das normas legais vigentes.

Jocelito Girardi, 50 anos, trabalha em Muitos Capões, município vizinho de Vacaria, caça javalis há 25 anos, como um hobby. Também caça outros animais e pesca com frequência. “É um esporte para mim”. Garante que ele e seus companheiros cumprem todas as leis a respeito de armas e só usam em propriedades que permitem o abate dos javalis.

– O problema aqui na região dos Campos de Cima da Serra é que uma empresa rural de grande porte trouxe estes animais há quase 40 anos, formou um criadouro e, depois, diante da alta reprodução, decidiu soltar os bichos. Foi e está sendo uma destruição sem limites. Caço com frequência. E consumimos com muito cuidado. Em panela, em espetos, deixamos cozinhar até ter certeza de o animal está pronto para ser comido sem medo de futuras doenças. Várias equipes aqui de Vacaria caçam até 300 javalis por semana – afirma Jocelito.

Secretaria da Agricultura

O Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) informa que não dispõe de dados estatísticos oficiais relacionados aos danos causados por javalis e as principais regiões afetadas. No entanto, informa, que dados de órgãos ambientais como o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), reportam que as regiões mais impactadas pelos prejuízos causados nas lavouras e nos rebanhos são aquelas relacionadas com lavouras de grãos e criação de animais.

Em Santana do Livramento, na Fronteira Oeste, por exemplo, os prejuízos incluem a destruição de pastagens e comprometimento da produção pecuária. Culturas de arroz, milho e soja na região de Alegrete também são comumente afetadas pelos javalis, que podem destruir plantações inteiras, revirando solo, arrancando forragens e danificando lavouras.

O crescimento da população de javalis representa uma séria ameaça do ponto de vista sanitário, pois além de competirem por alimento e território com espécies nativas, esses animais são vetores de doenças que podem comprometer a pecuária nacional e a segurança alimentar do Brasil, relata a Seapi.

Existem também informações, conforme relatos e comunicações nas Inspetorias de Defesa Agropecuárias do Estado por parte dos produtores rurais, sobre a grande população de javalis na região de Vacaria e da região de Campos de Cima da Serra. “Até o momento, a Seapi não dispõe de uma metodologia de coleta de dados oficiais para registro de danos causados por javalis. Está sendo elaborado um método que em breve poderá estimar mais precisamente estes prejuízos”, garantiu a Assessoria de Comunicação da Secretaria.

Veado Uruguaio

Eles estão chegando em bandos ou manadas, assim como aconteceu no século passado com os javalis. É o veado ou cervo uruguaio, como é chamado na região dos Campos de Cima da Serra. Já são vistos com frequência pelos campos e matos de Vacaria, como constatou o administrador rural João Batista Moraes da Silva, 62 anos. Assim como os javalis, eles também são um perigo para a agricultura e o meio ambiente.

O nome oficial do animal é ‘Chital’, espécie originária da Ásia e que foi introduzida no Uruguai e na Argentina para caça. O Rio Grande do Sul emitiu portaria para regulamentar controle da população em Unidades de Conservação, mas os veados/cervos estão se espalhando rapidamente e também causam danos às lavouras, comendo grãos e destruindo tudo que encontram pela frente, mas sem a ferocidade dos javalis.

Nativo das florestas da Índia, Sri Lanka, Nepal, Bangladesh, Butão e Paquistão, chegou um bicho exótico no Sul do Brasil. “Em 1930 esse cervo foi introduzido na Argentina e no Uruguai, porque é um animal muito atrativo para a caça, já que é grande e possui uma galhada bem expressiva. Com o passar dos anos passaram a migrar para o Brasil e chegaram, em 2009, no Parque Estadual do Espinilho, na Barra do Quaraí, no Rio Grande do Sul”, conta o pesquisador Márcio Leite de Oliveira, da Universidade Estadual de São Paulo.

Esses grandes mamíferos, com pintas brancas, cujo macho chega a pesar 110 quilos e medir um metro e dez centímetros na altura da cernelha podem ter ultrapassado a fronteira por terra, como também por água, já que são exímios nadadores. São herbívoros e não têm predadores por aqui, embora na região de Vacaria, segundo o administrador João Batista Moraes da Silva, eles tenham sido atacados por onças pintadas e baias.

“Quando uma espécie exótica invade um território novo e consegue sobreviver ela passa por uma fase de adaptação. Aos poucos as populações vão se formando e os bichos se estabelecendo, o que demora certo período de tempo. Depois, gradativamente, os grupos aumentam e os animais começam a se espalhar”, comenta Oliveira.

“É uma espécie exótica que não pertence ao Brasil e que não deveria estar aqui. Não queremos que esse cervo seja visto com um bicho de estimação, ao mesmo tempo que também não queremos que todo mundo pegue armas para caçar”, alerta Oliveira.

Erradicar uma espécie invasora já estabelecida em um território é muito difícil, mas o ideal é trabalhar no controle dos animais, diz o biólogo Luís Fernando Perelló, Analista Ambiental da Fepam (Fundação Estadual da Proteção Ambiental do RS), integrante do Grupo de Assessoramento Técnico do Programa Estadual de Controle de Espécies Exóticas Invasoras e um dos especialistas dedicados aos estudos com a espécie no Rio Grande do Sul.

Perelló, que também foi jornalista e editor da área Rural, diz que a primeira iniciativa foi reconhecer, formalmente, a espécie como exótica e invasora em 2013. “Esse passo foi importante para podermos promover e idealizar iniciativas legais para lidar com o problema. A partir daí, o animal começou a ser estudado e desenvolvemos um projeto para investigar a questão sanitária desse cervo. A intenção foi a de averiguar se havia riscos para a saúde dos rebanhos do Estado”, explica Perelló.

Uma portaria estadual já controla parcialmente a espécie nas unidades de conservação. O foco é principalmente os cervos que estão no Parque Estadual do Espinilho. Agora a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais (SEMA) do RS trabalha na implementação do controle.

Perelló afirma que não quer que aconteça o mesmo que ocorre com o que ele chama de “pretenso controle” do javali, onde os abates acontecem sem que haja um controle efetivo e confiável dos resultados, o que abre brecha para outros problemas.

“Nossa ideia é oferecer treinamento específico para os controladores (pessoas que vão abater os cervos) visando a segura identificação, além de instruções sobre como se portar no interior de uma Unidade de Conservação”, diz o biólogo.

Os caçadores precisarão usar equipamentos próprios e legalizados e integrarem um cadastro específico. Além disso, durante a caça sempre serão acompanhados de um funcionário da própria unidade de conservação, essa a responsável por todo o processo. Dessa forma, a caça acontecerá de acordo com a demanda da própria unidade que decidirá quando e como deverá ocorrer o controle.

Ao final das operações, relatórios serão emitidos com informações sobre o número de abates, sexo dos animais e até destinação da carcaça. O consumo da carne não é recomendado, eis que se trata de um animal que não passou por qualquer avaliação de saúde. Perelló reforça que ainda não há nenhum tipo de legislação para o controle do animal fora das áreas de Unidade de Conservação. “Eles andam soltos e já foram vistos até em rodovias do RS e de outros estados, em cidades e no litoral. Estão se espalhando”, conclui.

Editado por: Vivian Virissimo

Fonte: Brasil de Fato

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