segunda-feira, março 9, 2026
Últimos:
Saúde

Por Dan Baumgardt*, Katie Edwards*

Os nervos, representados em amarelo na ilustração, são estruturas do sistema nervoso que fazem a comunicação do cérebro com diversas partes do corpo. O nervo vago faz a conexão com a maior parte dos órgãos e das vísceras do tórax e do abdômen — Foto: Science Photo Library

Os nervos, representados em amarelo na ilustração, são estruturas do sistema nervoso que fazem a comunicação do cérebro com diversas partes do corpo. O nervo vago faz a conexão com a maior parte dos órgãos e das vísceras do tórax e do abdômen — Foto: Science Photo Library

O nervo vago se tornou a parte do corpo favorita da internet.

Nas redes sociais, ele está em toda parte. Pessoas cantam ou fazem sons graves para seus celulares, gargarejam com entusiasmo teatral, mergulham o rosto em tigelas com água gelada e cutucam as orelhas na esperança de “ativá-lo”. Influenciadores o descrevem como um interruptor mestre escondido para calma, digestão e equilíbrio emocional. Alguns afirmam que aprender a controlá-lo pode transformar tudo, da ansiedade à inflamação.

Tudo isso faz com que ele pareça quase místico. Na realidade, o nervo vago não é uma tendência de bem-estar. Ele é um nervo real, físico — e surpreendentemente importante.

No quarto episódio do podcast Strange Health, voltamos nossa atenção para o nervo craniano mais longo do corpo e fazemos uma pergunta simples: o que o nervo vago realmente faz e será que podemos mesmo “hackeá-lo”?

Para descobrir, conversamos com Arshad Majid, professor de neurologia cerebrovascular na Universidade de Sheffield e especialista em estimulação do nervo vago. Como ele explica, o nervo vago é um dos 12 nervos cranianos que emergem diretamente do cérebro. Seu nome vem do latim para “errante” ou “vagante”, o que é apropriado. Ele começa no tronco cerebral e desce pelo pescoço até o tórax e o abdômen, conectando-se ao coração, aos pulmões, ao intestino e até ao fígado.

Ele é menos um fio de função única e mais uma movimentada via de mão dupla de informações. A maior parte de sua atividade envolve levar sinais do corpo de volta ao cérebro, mantendo-o informado sobre o que está acontecendo internamente. Ele também faz parte do sistema nervoso autônomo, que regula processos que não controlamos conscientemente, como frequência cardíaca, respiração e digestão.

Dentro desse sistema, o nervo vago desempenha um papel fundamental na resposta parassimpática, às vezes chamada de “descansar e digerir”. Quando esse sistema predomina, a frequência cardíaca diminui, a pressão arterial cai e o corpo entra em um estado mais calmo e restaurador. Isso está bem estabelecido. O que é menos claro é o quanto conseguimos influenciar esse processo por conta própria.

Apesar da explosão de conteúdo sobre o nervo vago na internet, Majid é cauteloso em relação às afirmações de que ele pode ser ativado como se fosse um interruptor. Respiração lenta, cantar, fazer sons graves ou jogar água fria no rosto podem influenciar indiretamente a atividade do nervo vago, mas ele não funciona como um botão de liga e desliga, e os efeitos variam muito entre as pessoas. Em alguns casos, tentar estimular o nervo vago pode até desencadear dores de cabeça e até depressão.

A estimulação do nervo vago, no entanto, tem base mais sólida na medicina. Dispositivos implantados que estimulam diretamente esse nervo são usados há anos para tratar condições como epilepsia resistente ao tratamento e depressão.

Mais recentemente, pesquisadores começaram a explorar abordagens não invasivas. Alguns dispositivos médicos estimulam um pequeno ramo do nervo vago na orelha usando pulsos elétricos suaves.

Majid e seus colegas estão atualmente conduzindo um grande ensaio clínico para investigar se esse tipo de estimulação não invasiva pode melhorar a função do braço em pessoas que estão se recuperando de um AVC, incentivando o cérebro a se reorganizar. Se for bem-sucedido, isso pode transformar a reabilitação de muitos pacientes.

Apesar do entusiasmo online, portanto, os cientistas ainda estão apenas começando a entender o que esse nervo “errante” pode fazer e como ele pode ser usado terapeuticamente.

Ouça o Strange Health para descobrir por que o nervo vago atraiu tanta atenção, o que a ciência realmente diz e por que os próximos anos de pesquisa podem mudar a forma como tratamos condições que vão do AVC à depressão.

Enquanto isso, talvez seja melhor evitar cutucar agressivamente a própria orelha.

*Katie Edwards é editora e apresentadora do Strange Health podcast do The Conversation.

*Dan Baumgardt é professor senior da Escola de Psicologia e Neurociêcia da Universidade de Bristol.

**Este texto foi publicado originalmente no site da The Conversation Brasil.

Fonte: G1

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *