sábado, abril 25, 2026
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Gastronomia

O sabor de um ícone: por dentro da gastronomia do Four Seasons Buenos Aires

Sob o comando do chef Juan Gaffuri, hotel reúne três restaurantes que traduzem a identidade portenha e virou ponto de encontro entre os locais

Tina Bini, do Viagem & Gastronomia

Four Seasons Buenos Aires é daqueles raros endereços que ultrapassam a condição de hotel para se integrar à própria identidade da cidade. Ícone da hospitalidade portenha, é destino de viajantes, mas também ponto de encontro frequente de moradores de Buenos Aires.

Instalado no elegante bairro da Recoleta, o complexo ocupa uma área de cerca de 28 mil metros quadrados e reúne 165 acomodações distribuídas entre um edifício contemporâneo e uma mansão do início do século 20 que ajuda a contar parte da história local. O casarão, com sua arquitetura clássica e salões imponentes, evoca outras épocas e convida a imaginar as narrativas que atravessaram suas paredes.

Ali, passado e presente convivem de forma orgânica. Enquanto a mansão preserva elementos originais e uma atmosfera quase cinematográfica, a ala moderna traduz o luxo contemporâneo em linhas limpas e conforto absoluto. Ao redor, a experiência se constrói nos detalhes: dos lençóis de alta qualidade à piscina cercada por jardins, passando pelo serviço característico da marca, conhecida pela atenção minuciosa em cada etapa da estadia.

Mas é na gastronomia que o hotel encontra um de seus pilares mais fortes. Parte essencial da relevância do Four Seasons na capital argentina está à mesa, onde diferentes conceitos convivem e criam um ecossistema próprio, quase como uma pequena cidade dentro da cidade. Juntos, os três restaurantes recebem cerca de 900 pessoas por dia, sendo aproximadamente 70% desse público formado por locais.

À frente dessa operação está o chef Juan Gaffuri, há anos no comando das cozinhas do hotel. Sua relação com o Four Seasons ultrapassa a esfera profissional. Ele fala do espaço como uma extensão de sua própria casa, percepção que ganhou contornos literais durante a pandemia, quando chegou a viver no hotel com a família por meses. A experiência ajuda a explicar o vínculo profundo com o projeto e o nível de envolvimento que imprime em cada detalhe.

Essa conexão começa muito antes da alta gastronomia. Gaffuri cresceu em torno da mesa, em uma família onde cozinhar e receber eram quase um ritual. Entre receitas herdadas e encontros que reuniam diferentes gerações, foi ali que seu paladar começou a se formar, influenciado por uma mistura de tradições bascas, galegas e italianas. “Terminávamos uma refeição já pensando na próxima”, relembra.

Curiosamente, o caminho até a gastronomia não foi direto. Antes de se tornar chef, chegou a iniciar estudos em engenharia, até perceber que sua vocação estava em outro lugar. A cozinha entrou em sua vida no fim dos anos 1990 e, pouco tempo depois, o próprio Four Seasons Hotel Buenos Aires apareceu como ponto de virada. Em 2000, ingressou na equipe como saucier (responsável pelos molhos) em um movimento que marcaria o início de uma trajetória de longo prazo dentro da hotelaria de luxo.

Essa trajetória inclui passagens internacionais e, sobretudo, um momento decisivo: seu retorno a Buenos Aires, em 2011, para liderar uma transformação profunda na gastronomia do hotel. A missão era clara: deixar de lado a tradicional influência francesa, por muitos anos dominante na hotelaria de luxo, e construir uma identidade genuinamente argentina, capaz de dialogar tanto com hóspedes quanto com o público local.

O resultado foi exemplar. O Four Seasons se tornou o primeiro hotel de alto padrão do país a colocar a culinária nacional no centro da experiência, abandonando o previsível conceito de “cardápio internacional”. Também apostou em restaurantes com identidade própria, nome e personalidade definidos. Assim nasceu um fenômeno raro no setor: o Elena, seu principal restaurante, deixou de ser apenas o “restaurante do hotel” para se tornar um destino em si. Em Buenos Aires, muita gente não diz que vai ao Four Seasons – diz simplesmente que vai ao Elena.

O movimento virou referência e ajudou a redesenhar a forma como a hotelaria de luxo pensava seus restaurantes.

Elena: o coração do hotel

Se o Four Seasons encontra na gastronomia um de seus pilares, é no Elena que essa vocação se manifesta com mais clareza. O restaurante funciona como o centro gravitacional da operação: é dali que tudo parte.

Aberto todos os dias, ao longo de todo o dia, a cozinha equilibra inovação e permanência: ao mesmo tempo em que testa caminhos novos, mantém pratos que já se tornaram clássicos para uma clientela fiel, que volta sabendo exatamente o que quer encontrar. É dessa cozinha também que saem o café da manhã dos hóspedes e o serviço de room service, em uma jornada que parece incansável.

Sob o comando de Juan, Nicolás Díaz Rosaenz é quem está à frente da operação diária, e, juntos, mantém um padrão altíssimo. Não à toa, a casa figura entre os World’s 101 Best Steak Restaurants 2026 e integra o Guia Michelin de Buenos Aires, além de uma longa trajetória no Latin America’s 50 Best Restaurants.

O espaço ajuda a contar essa história. Inspirado nas casas antigas de bairros como San Telmo, o salão combina elegância e aconchego, com referências que vão dos cortiços urbanos à herança europeia que moldou a cidade. São cerca de 140 lugares distribuídos em dois andares, incluindo um salão privado que reproduz o clima de uma sala de jantar doméstica.

Na cozinha, a base está na relação direta com produtores e na obsessão pela matéria-prima. Ingredientes são rastreados, testados e, muitas vezes, desenvolvidos em conjunto com quem produz. É um processo que exige tempo e curiosidade que se reflete no prato.

A carne, claro, é protagonista. Mais do que um símbolo nacional, aqui ela é tratada como objeto de estudo. O trabalho com maturação a seco (dry aged) se tornou um dos pilares da casa, com cortes que passam de 45 a 90 dias em câmaras controladas, desenvolvendo sabor, textura e complexidade. Da parrilla saem T-bones, ojo de bife e bife de chorizo, muitos deles de raças como Angus e Wagyu, preparados com precisão.

Mas o menu não se resume à brasa. Há uma cozinha que dialoga com diferentes referências e regiões do país. Entre as entradas, aparecem pratos como mollejas com emulsão de limão, polvo e lagostins com combinações que cruzam fronteiras. A charcutaria da casa também merece atenção, com embutidos produzidos ali mesmo e servidos com pães que saem do forno a lenha e conservas.

Os acompanhamentos fogem do óbvio e reforçam essa leitura mais ampla da cozinha argentina: abóbora assada com chutney de menta e mel picante, couve-flor tostada com pistache e ervas, batata-doce com iogurte de búfala e castanhas. São pratos que não disputam protagonismo com a carne, mas ampliam a experiência.

Na sobremesa, a chef pâtissière Soledad Gamberoni trabalha com técnica e delicadeza, reinterpretando clássicos locais. Já a carta de vinhos, com mais de 400 rótulos, percorre o país de norte a sul e reforça a ideia de uma cozinha profundamente conectada ao território.

Os números ajudam a dimensionar a operação: são cerca de 105 mil clientes por ano, 25 mil quilos de carne dry aged, 75 mil quilos de vegetais frescos e mais de 15 mil garrafas de vinho servidas, sustentados por uma equipe de cerca de 60 profissionais.

Além do Elena, o hotel conta com outros dois endereços que ajudam a explicar por que o endereço se tornou também um polo gastronômico da cidade.

Logo na entrada do hotel, o Pony Line é provavelmente o endereço mais vibrante do complexo. Bar, cafeteria, restaurante, funciona em diferentes registros ao longo do dia e parece sempre em movimento. O nome faz referência direta ao universo do polo, paixão do proprietário do hotel, e a ambientação segue a mesma narrativa: referências equestres discretas, iluminação baixa, couro, madeira escura e uma elegância despretensiosa. A proposta é recriar, com cautela e muita sofisticação, a atmosfera de um estábulo.

Durante o dia, o salão recebe executivos, hóspedes e moradores da cidade para reuniões, cafés rápidos e almoços descomplicados. É um espaço funcional, mas nunca burocrático. À medida que a noite chega, o clima muda completamente. A música sobe, as mesas se enchem e o Pony Line assume sua vocação social. Pode ser o ponto de partida para a noite, uma parada casual para um drinque, um jantar que se estende sem pressa ou a última taça antes de voltar para casa ou subir para uma das suítes impecáveis do hotel.

A coquetelaria é um dos grandes trunfos da casa. Cerca de 55 mil drinques saem do seu balcão por ano, em uma carta que combina releituras de clássicos e criações autorais. É o tipo de bar onde se pode pedir tanto um martíni impecavelmente executado quanto combinações mais criativas, com ingredientes locais e toques contemporâneos.

Na cozinha, o menu acompanha o ritmo versátil do espaço. Há petiscos bem resolvidos, pratos pensados para compartilhar e opções mais substanciosas. Entre elas, o hambúrguer se tornou um clássico da casa: suculento e com a opção de trufas frescas, ultrapassa a marca de 30 mil unidades vendidas por ano. Divide atenção com sanduíches, cortes de carne e pratos que transitam com naturalidade entre o casual e o gastronômico.

Se o Pony Line traduz o lado mais urbano e cosmopolita do hotel, o Nuestro Secreto revela sua face mais íntima e, talvez, a mais encantadora.

Localizado no jardim da propriedade, entre a torre moderna e a mansão histórica, e com vista para a piscina, o restaurante faz jus ao nome: é quase um segredo mesmo, ainda que já bastante conhecido entre os portenhos. Um refúgio no meio da cidade, um raro oásis urbano, daqueles que fazem esquecer, por algumas horas, que se está em uma das capitais mais movimentadas da América do Sul.

A primeira impressão já define o tom. O salão principal é envolto por vidro, em uma estrutura elegante que deixa entrar a luz natural durante o dia e revela o céu à noite. A sensação é de estar ao ar livre, mas com conforto absoluto em qualquer estação. Uma espécie de jardim de inverno sofisticado, onde interior e exterior se encontram sem esforço.

Do lado de fora, o fogo domina a cena. Não apenas na cozinha, mas como elemento estético e emocional. As brasas acesas, o perfume da lenha, o calor que emana dos assadores e o crepitar constante transformam o ambiente em uma ode ao ritual do asado argentino. Aqui, o fogo aparece em diferentes formas: parrilla, asador, forno a lenha e outras técnicas que traduzem uma das tradições mais profundas do país.

Taças de vinho, conversas longas e pratos que chegam para compartilhar compõem o clima. Cortes clássicos como ojo de bife, bife de chorizo e costelas ganham protagonismo, preparados lentamente na brasa ou no asador. Ao lado deles surgem empanadas, mollejas, embutidos artesanais, saladas frescas e acompanhamentos que fazem jus a um grande “churrasco” argentino.

Entre os destaques está o assado de tira preparado no fogo de chão, em um processo que exige paciência e domínio técnico. Ao longo do ano, cerca de 8 mil quilos dessa especialidade passam pelo restaurante, uma demonstração do quanto o público abraçou a proposta.

O respeito ao fogo também aparece na operação. São cerca de 30 mil quilos de lenha ecológica utilizados anualmente para abastecer os diferentes métodos de cocção e, nos bastidores, uma equipe de 25 profissionais sustenta a engrenagem que recebe mais de 30 mil comensais por ano.

No fim, mais do que os números impressionantes, os restaurantes do hotel sintetizam algo essencial sobre Buenos Aires: a capacidade de transformar comida em encontro, fogo em ritual e mesa em memória. 

*A jornalista viajou a convite do restaurante Elena. 

Fonte: CNN

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