Ex-atletas do Flamengo dizem à ESPN que Bap ‘não quer esporte paralímpico dentro do clube’
Ex-atletas do Flamengo dizem à ESPN que Bap ‘não quer esporte paralímpico dentro do clube’
A dispensa dos atletas da equipe de remo paralímpico do Flamengo teria sido motivada por escolha pessoal do presidente Luiz Eduardo Baptista. Em entrevista à ESPN, os pararemadores afirmaram que a gerência de esportes náuticos rubro-negra comunicou que o corte se daria porque “o presidente não quer nenhum esporte paraolímpico dentro do clube”.
A saída de Michel Pessanha, Gessyca Guerra, Diana Barcellos e Valdenir Junior foi oficializada no último dia 5. Internamente, havia boatos de cortes no departamento náutico há semanas, mas a expectativa era de diminuição da quantidade de atletas, não de acabar com o pararemo. Michel e Gessyca, por exemplo, estavam tranquilos, confiantes que os resultados da dupla – ouro no double skiff misto PR2 na Copa do Mundo de Varese, Itália; título brasileiro; 5º lugar no Mundial de Xangai e eleitos remadores do ano pelo Prêmio Paralímpicos 2025 – seriam suficientes para mantê-los no clube.
Pouco antes do Natal, os dois procuraram a gerência para entender melhor os boatos e foram pegos de surpresa com a notícia do término do vínculo. Na conversa, foi dito que o motivo para a dispensa não era oneração, mas sim falta de acessibilidade na sede da Gávea e uma reunião direta entre gerência e presidência, na qual Bap teria afirmado não querer modalidades paralímpicas no Flamengo.
“A gente sentou em uma mesa no pátio do clube e aí a gerente chegou para a gente, desmistificou o que seria oneração, que a questão financeira do Flamengo não era uma problemática, mas que a questão de acessibilidade e a questão da reunião que teve com o presidente, (do Bap) falar que não quer nenhuma modalidade do Flamengo com pessoa com deficiência, ele não quer dar isso”, relatou Gessyca. “O gerente mesmo falou na nossa frente que o presidente não quer nenhuma modalidade com paralímpico e ele não quer se indispor com os outros treinadores coordenadores que solicitam ter atletas paralímpicos nas suas modalidades. Então, para não ter esse conflito, ele decidiu finalizar o trabalho com o remo paralímpico. E essa foi a palavra do gerente. Estávamos eu, Michel, o gerente e o nosso treinador.”
“Eu, Gessyca, observo que é uma decisão unânime do presidente. A decisão é dele e ele é o dono da caneta. E a decisão foi tomada sem conhecer o nosso trabalho.” Ela ainda questionou a justificativa sobre acessibilidade: “Nós somos atletas profissionais. A gente não está falando de captação, de iniciação, que precisa de alguém para dar a mão, para ensinar o beabá. A gente sabe entrar e sair da água. A gente tem o suporte do treinador, então não tem uma certa concordância”.
Michel Pessanha, que estava há quase treze anos no Flamengo e tem sequelas da poliomielite na perna, comentou o ocorrido: “Eu já passei por algumas outras gestões e fui muito bem respeitado e tratado dentro do Flamengo. Eu não tenho nada de dizer sobre o Clube de Regatas do Flamengo. Mas hoje eu vejo essa nova gestão como uma gestão que não apoia a pessoa com deficiência”. Para o atleta, houve capacitismo por parte da organização.
“Hoje eu fico triste porque o mundo é apoio paradesporto. O mundo está indo a favor da inclusão e o Flamengo está na contramão. Eu quero deixar um recado para você, torcedor que tem um filho, que tem uma família atípica: Você é bem-vindo no Flamengo como torcedor. Mas de repente o seu ente, que é a pessoa com deficiência, talvez não tenha o mesmo tratamento.”
Além da equipe de pararemo, o Flamengo também fechou a pasta da canoagem. O multimedalhista olímpico Isaquias Queiroz foi um dos nomes que se despediram do clube. Na nota oficial, o Rubro-Negro afirmou que os canoístas “não residem nem realizam seus treinamentos no Rio de Janeiro. Esse contexto inviabiliza a consolidação de um trabalho estruturado de base e a formação de novos talentos, pilares fundamentais do projeto esportivo do Flamengo e parte essencial do seu DNA histórico”.
De fato, os membros da seleção brasileira de canoagem de velocidade treinam em Lagoa Santa (MG). Porém, a equipe paralímpica treinava na Gávea, o que gerou revolta em Gessyca Guerra, diagnosticada com paralisia cerebral. Ela foi captada pelo clube, onde fez seu trabalho de base, e estava há quatro anos na modalidade, inclusive morando no alojamento rubro-negro. “Ele [Bap] usa uma desculpa dizendo que atletas não treinavam no Rio de Janeiro. [Era melhor] falar a verdade, que ele só não gosta de atleta paralímpico, não gosta de pessoa com deficiência. Seria até mais respeitoso.”
A dupla de pararemadores agora se prepara para a seletiva nacional, em 28 de fevereiro. O dano financeiro da saída é ruim, mas a maior dificuldade tem sido psicológica. Gessyca ainda não voltou a treinar e afirmou precisar se “reencontrar como atleta”. Michel tem seguido sua rotina, com menos motivação, graças ao apoio da Confederação Brasileira de Remo. Eles ainda não definiram a qual clube se filiarão, pois precisa ser uma decisão conjunta.
“Ele [Bap] cortou nossos sonhos, cortou os nossos processos, cortou os nossos objetivos sem ao menos olhar pra gente, ter a hombridade de falar para a gente que ele não quer o paralímpico no clube dele que ele gera. Ele é gestor, mas na verdade, isso para mim não é gestão, isso é exclusão”, finalizou Gessyca.
Cortes a instituto social A decisão de encerrar as modalidades não afetou apenas os atletas paralímpicos. Roberto Maehler era o único canoísta que treinava no Rio de Janeiro. Ele ficou sabendo do desligamento por meio das redes sociais, quando a nota oficial foi publicada. Roberto, campeão pan-americano em 2007, também havia ouvido rumores, mas não foi previamente informado.
“Já vinha se falando há um tempo, desde outubro, que não teria mais atletas de aluguel, como se chama os atletas que são contratados do Flamengo, mas treinam em outras cidades. A intenção do Bap é justamente [manter] quem treina, quem usa as instalações, quem está no Rio de Janeiro. Eu não entendi o meu caso especificamente, que estava no Flamengo, treinando, desenvolvendo um projeto, inclusive bem bacana.”
Ele se refere ao Instituto Roberto Maehler, que já apresentou o esporte a mais de 115 crianças da Zona Norte do Rio de Janeiro. O projeto social agora está sob risco sem o apoio do Flamengo. “Agora a gente está se reorganizando psicologicamente e buscando um novo espaço também, porque a canoagem sempre foi totalmente dependente do Flamengo, que nos dava toda a estrutura física e todo o material”, comentou o atleta que, aos 40 anos, já caminhava para a aposentadoria.
Roberto também faz parte da Marinha, que já prometeu apoio total ao instituto para que não seja necessário fechar as portas. “Tem esse menino [Davi Ribeiro Militão, atleta mirim] que eu vejo ele como um futuro Isaquias Queiroz. Ele respira canoagem todos os dias e tem 12 anos. Como eu vou virar para ele hoje e falar ‘Poxa, o Flamengo não quer mais a canoagem, vai cada um para o seu canto’?”
Os próximos passos ainda são incertos, com espaço até para renovação do apoio do Flamengo. Ele acredita que é possível conversar com a diretoria para chegar a um acordo que não gere custos ao clube, apenas “deixar o portão aberto para a gente acessar e emprestar o material e a gente poder executar o nosso trabalho”. O Rubro-Negro era o maior investidor da modalidade em solo fluminense. O apoio institucional ao projeto é essencial “para que a canoagem não morra no Rio de Janeiro”.
Se de fato for o ponto final da relação com o Flamengo, Roberto, que também é presidente da Federação de Canoagem do Rio de Janeiro, disse que vai conversar com a Casa Civil, com o estado e com a Secretaria de Esportes para conseguir verbas e a liberação para usar o estádio de remo da Lagoa Rodrigo de Freitas.
Os outros atletas de canoagem dispensados pelo Flamengo – Isaquias Queiroz, Gabriel Assunção, Mateus dos Santos e Valdenice do Nascimento – vão continuar treinando normalmente no centro de treinamento da seleção brasileira. O campeão olímpico chegou a comentar que já tinha negociações com um grande clube, mas não podia revelar qual.
Isaquias se pronunciou em suas redes sociais no último dia 6, com um vídeo de agradecimento ao Flamengo. “Agradecer a toda a diretoria, desde 2011, quando iniciei no Flamengo. Agradecer a todos os funcionários do Flamengo pelo carinho. Sempre sou muito bem tratado. Agradecer a todos atletas. O pessoal do remo, quando chego lá me sinto em casa. Queria agradecer a vocês, Nação Rubro-Negra, pelo apoio. Foi incrível, mágico, ter feito parte do Clube de Regatas Flamengo”, disse o canoísta.
O que o Flamengo diz?
Procurado pela reportagem, o Clube de Regatas do Flamengo disse que já se manifestou através da nota oficial e que não faria sentido se posicionar sobre uma mecânica interna do clube. Caso o clube se manifeste novamente, em qualquer momento, esta matéria será atualizada.
Confira a nota oficial do Flamengo, publicada em 5 de janeiro, na íntegra:
“O Flamengo se orgulha de ter contado em sua equipe com Isaquias Queiroz, um dos maiores atletas da história do esporte olímpico brasileiro. Campeão olímpico, com cinco medalhas em Jogos, e referência mundial na canoagem, Isaquias vestiu o Manto Sagrado por cerca de 7 anos nesta última passagem, encerrando seu ciclo no clube de forma marcante e deixando um legado de conquistas que nos orgulha.
Dentro de uma avaliação estratégica alinhada às premissas que norteiam o esporte olímpico do Flamengo, o clube encerra sua participação na modalidade canoagem. A decisão está em consonância com a filosofia rubro-negra de aliar excelência competitiva ao investimento contínuo na formação, no desenvolvimento de atletas e no fortalecimento das modalidades a partir de estruturas permanentes.
Atualmente, tanto Isaquias Queiroz como Gabriel Assunção, Mateus dos Santos e Valdenice do Nascimento não residem nem realizam seus treinamentos no Rio de Janeiro. Esse contexto inviabiliza a consolidação de um trabalho estruturado de base e a formação de novos talentos, pilares fundamentais do projeto esportivo do Flamengo e parte essencial do seu DNA histórico.
O Flamengo agradece a Isaquias Queiroz, a Gabriel Assunção, a Mateus dos Santos, a Valdenice do Nascimento e a Roberto Maehler por todo o profissionalismo, dedicação e pelas conquistas alcançadas durante o período em que defenderam o Manto Sagrado, e deseja pleno sucesso na continuidade de suas trajetórias esportivas.
O Clube de Regatas do Flamengo também encerra sua participação no pararemo. O clube agradece aos atletas Michel Pessanha, Gessyca Guerra, Diana Barcellos e Valdenir Junior por representarem o Manto Sagrado com dedicação, comprometimento e espírito esportivo, contribuindo para a história rubro-negra no paradesporto. O Flamengo reconhece a importância de suas trajetórias e deseja pleno êxito na continuidade de suas carreiras.”
Fonte: ESPN

