terça-feira, março 17, 2026
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Finlândia é estimulante ponto fora da curva num mundo em conflito

Com típica sinceridade nórdica, presidente do país vocaliza sua visão de que a geopolítica global está mudando dramaticamente em função de conflitos em diferentes geografias

Alexander Stubb tem sido uma liderança cada vez mais ouvida quando se trata dos grandes temas do cenário internacional.

Ele é presidente de uma Finlândia habitada por apenas 5,6 milhões de pessoas (menos do que a população do Rio de Janeiro) e cujo território, equivalente ao do estado de Goiás, já assistiu diferentes cenários: em séculos passados pertenceu à Suécia, depois à Rússia e alcançou a independência apenas em 1917.

Com típica sinceridade nórdica, Stubb vocaliza sua visão de que a geopolítica global está mudando dramaticamente em função de conflitos em diferentes geografias.

E, ao contrário de muitos analistas, afirma que quatro anos após ter sido invadida, a Ucrânia não está perdendo a guerra para a Rússia, pois esta tem registrado poucos avanços e muitas perdas humanas e materiais.

Defensor do livre comércio, ele criticou fortemente as tarifas comerciais impostas pelo presidente Donald Trump ao longo do ano passado e alertou para o risco de uma “perigosa espiral descendente” que prejudicaria todos os países, indistintamente.

Ao mesmo tempo, defendeu o diálogo com Washington em lugar das possíveis retaliações esboçadas por alguns colegas europeus.

Também sem rodeios, Stubb diz que os Estados Unidos estão agindo amplamente fora do direito internacional ao atacar o Irã. Não vislumbra um desfecho estratégico para o conflito e mostra-se cético em relação a possíveis mediações destinadas a amenizar o atual quadro na região.

Argumenta ainda que a guerra na Ucrânia poderia já ter terminado se Kiev tivesse recebido o mesmo nível de apoio de defesa aérea que foi mobilizado na região do Golfo durante a guerra deflagrada no Oriente Médio.

No seu entender ainda que a alta do petróleo nas últimas semanas acabe gerando ganhos financeiros para o governo de Vladimir Putin, do ponto de vista militar a Ucrânia pode ser beneficiada com a disputa de Estados Unidos e Israel contra o Irã.

A razão: o potencial impacto na capacidade de Moscou continuar cooperando com Teerã na mesma proporção registrada ao longo dos últimos anos.

“Irã e a Rússia não são capazes de cooperar neste momento em mísseis ou na indústria de defesa”, disse ele há poucos dias numa entrevista em Mumbai, durante visita oficial à Índia

A súbita mudança do foco internacional em direção ao Oriente Médio pode até abrir espaço para tratativas de bastidores visando um cessar-fogo na Ucrânia, garantindo assim “espaço para que os negociadores cheguem a um acordo fora dos holofotes”, opinou.

Todas as manifestações de Alexander Stubb podem ser vistas com estranheza por aqueles que, erroneamente, enxergam a Finlândia como um território gelado de limitada expressão internacional.

Na verdade, 18º mais rico do mundo no critério PIB (Produto Interno Bruto) per capita (Brasil é 80º. na lista), o país tem uma economia dinâmica e inovadora, um sistema educacional de alto nível, instituições sólidas e invejável patamar de bem-estar social.

Esse conjunto de variáveis fez com que a Finlândia tenha sido apontada em 2025, pelo oitavo ano consecutivo, o país com a população mais satisfeita do planeta de acordo com o Relatório Mundial de Felicidade da ONU (Organização das Nações Unidas).

Em recente reportagem, a revista britânica The Economist pergunta se não teria chegado a hora de “uma nova tendência nórdica”.

Esta seria expressão da realidade finlandesa e sua “filosofia que combina força interior, perseverança e uma atitude positiva em relação à adversidade”, condição essa resumida numa palavra de quatro letras do vocabulário local: “sisu”.

Helsinki já teve que “lutar contra a União Soviética duas vezes” para se manter independente, lembra The Economist. O texto ainda destaca que a fronteira de 1.350 quilômetros com a Rússia torna essa nação nórdica “vulnerável ao revanchismo delirante de Vladimir Putin”, mas ressalva que seus habitantes “não entraram em pânico”.

A bem-sucedida engrenagem política, econômica, social e institucional desse país onde centro-esquerda e centro-direita costumam se alternar pacificamente no poder inclui ainda uma forte preocupação com a segurança nacional.

A Finlândia é reconhecida como força militar compacta, bem equipada e preparada, com foco na defesa de seu território. Agora totalmente integrada à OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), ela mantém aproximadamente 30.000 militares na ativa distribuídos por Exército, Marinha e Força Aérea.

O contingente na reserva é constituído por 254.000 homens, mas uma mobilização especial durante uma crise de grandes proporções pode elevar esse número a 870.000 indivíduos. O orçamento de defesa equivale a 2,3% do seu PIB.

Os governos que se sucedem em Helsinki preocupam-se em garantir “resiliência psicológica” aos cidadãos, algo que pode ser traduzido como a possibilidade de as pessoas manterem atividades do dia a dia mesmo em meio a uma situação emergencial. E sem deixar de lado seu compromisso com a defesa nacional.

O condicionamento para uma vida sem sobressaltos mas sempre conectada aos cenários do cotidiano começa cedo. Crianças vão para a escola sozinhas, a pé ou de bicicleta. Elas são ensinadas que vivem em uma “sociedade segura”.

As crianças mais velhas são informadas sobre como identificar campanhas de desinformação online, as conhecidas fake news. Isso criou uma situação interessante: os finlandeses são considerados os europeus que menos acreditam em notícias falsas e os que menos compartilham tais tipos de mensagens. Além disso, são os que mais confiam no jornalismo do seu país.

Após a formatura, os jovens estão sujeitos ao recrutamento militar e um número crescente de moças se alista voluntariamente. Uma pesquisa mostrou que quase 80% dos finlandeses pegariam em armas para defender seu país “mesmo que o resultado parecesse incerto”. Esse percentual é significativamente maior do que na maioria dos países europeus (no outro extremo está a Itália, onde apenas 14% dos entrevistados se ofereceriam para o combate).

Embora Helsinki mantenha a filosofia “sisu” sempre viva, o presidente Alexander Stubb não se mostra especialmente otimista em relação a possíveis diálogos e entendimentos no ambiente global desses primeiros meses do ano.

“O problema com o mundo transacional que vemos hoje é que a diplomacia não é entendida como uma situação em que todos ganham”, disse ele recentemente.

Em vez disso, “é vista como uma espécie de jogo de ganha-perde ou de soma zero — e quando é de soma zero, é muito difícil fazer com que a paz perdure”.

Fonte: CNN

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