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Assassinatos no Brasil: como a guerra entre facções explica cenários tão diferentes entre estados, segundo especialistas

Por Arthur Stabile, g1 — São Paulo

  • O Brasil registrou queda nas mortes violentas pelo quinto ano seguido: foram 34.086 casos em 2025, contra 38.374 em 2024. O resultado representa uma taxa nacional de 16 mortes por 100 mil habitantes, enquanto era de 18 em 2024.

  • Entre os estados, Ceará (32,6), Pernambuco (31,6) e Alagoas (29,4) encabeçam o ranking das maiores taxas de mortes violentas a cada grupo de 100 mil habitantes. Já São Paulo (5,4), Santa Catarina (6,4) e Distrito Federal (8,8) têm as menores taxas.

  • Em variação, o Amazonas teve a maior queda de 2024 para 2025: recuo de 33% nos assassinatos. Por outro lado, o Tocantins registrou a maior alta, com 17%.

  • Segundo os números computados pelos estados até terça-feira (20) e divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, houve uma redução de 11%.

  • O número de 34.086 não inclui os dados referentes ao mês de dezembro nos estados de São Paulo e Paraíba, que não entraram no sistema do governo ainda.

Brasil tem queda nas mortes violentas intencionais, mas feminicídios batem recorde em 2025

Brasil tem queda nas mortes violentas intencionais, mas feminicídios batem recorde em 2025

O Brasil registrou queda nos assassinatos pelo quinto ano seguido: foram 34.086 casos em 2025, contra 38.374 em 2024. Segundo os números computados até terça-feira (20) pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, houve uma redução de 11%.

A grande maioria dos estados teve menos mortes violentas no ano passado, seguindo o padrão nacional. No Amazonas, essa queda foi de 33%. Por outro lado, em cinco estados e no DF, houve aumento.

O que explica essa diferença de cenários, segundo especialistas ouvidos pelo g1, é a dinâmica local do crime organizado. Nos momentos de maior conflito entre facções, as mortes tendem a subir. No Tocantins, os assassinatos aumentaram 17%.

Variações em um ano no número de mortos

A queda nacional nas mortes violentas ocorreu em 21 das 27 unidades federativas, com destaque para o Amazonas, com redução de 33%. Em seguida aparecem o Mato Grosso do Sul (-28%), Paraná e Rio Grande do Sul (ambos com recuo de 24%).

O pesquisador Aiala Couto, da Universidade do Estado do Pará e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirma que há um controle do crime por parte do Comando Vermelho no Amazonas.

“Se for pegar um mapa das facções no Amazonas, o Comando Vermelho praticamente eliminou as facções rivais, no caso a Família do Norte. Você tem uma diminuição [das mortes]. Os homicídios caem nesse momento em que o CV se torna hegemônico”, afirma o especialista.

Cinco estados e o DF vão contra a tendência nacional de queda nos homicídios e registraram alta de 2024 para 2025: Tocantins (17%), Rio Grande do Norte (14%), Roraima (9%), Acre (6%), Distrito Federal (5%) e Rio de Janeiro (2%).

Tanto TO quanto RN enfrentam guerras de facções, segundo especialistas ouvidos pelo g1.

Aiala Couto afirma que, no Tocantins, a alta ocorre pelo conflito entre Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), a facção dominante em São Paulo.

“O PCC estava no estado, o Comando Vermelho chegou e isso estimulou o conflito e tem tornado o estado bastante violento. O Tocantins está no centro da conexão do transporte de drogas”, afirma o pesquisador, ao citar a rota de entorpecentes da Amazônia até os portos com destino à Europa.

Segundo a antropóloga Juliana Melo, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a alta no estado ocorre após o CV romper parceria com uma facção local.

“No estado, acontece um movimento de disputa por facções: o Comando Vermelho, que antes era aliado a uma facção local chamada Sindicado do Crime (SDC), que é rival do PCC, agora virou inimigo desse grupo. As duas estão em disputa. E existem ações de novo cangaço, que tem entrado nessa disputa com o CV e o SDC, e isso tem aumentado bastante as mortes nas periferias, em especial”, afirma.

O nome novo cangaço é uma referência a grupos criminosos fortemente armados que atacam cidades para roubar grandes quantidades de dinheiro. Geralmente, são ações coordenadas que envolvem o bloqueio de ruas e uso de armas de grosso calibre, incluindo explosivos.

As maiores e as menores taxas de mortes violentas

O Brasil teve em 2025 uma taxa nacional de 16 mortes por 100 mil habitantes. Em 2025, eram 18 mortes. Ceará (32,6), Pernambuco (31,6) e Alagoas (29,4) encabeçam o ranking das maiores taxas. Enquanto São Paulo (5,4), Santa Catarina (6,4) e Distrito Federal (8,8) registraram as menores.

Veja no mapa abaixo qual foi a taxa no seu estado:

Mortes violentas por regiões

Considerando a divisão do país em regiões, houve queda em todas as cinco.

  • Sul: – 22% (passou de 3.935 mortes violentas em 2024 para 3.055 em 2025);
  • Centro Oeste: – 18% (de 2.682 para 2.204);
  • Norte: – 11% (de 4.304 para 3.829);
  • Nordeste: – 10% (de 17.052 para 15.412);
  • Sudeste: – 8% (de 10.401 para 9.586).

Redução de assassinatos é tendência

Já são cinco anos consecutivos de redução nas mortes violentas, de 2021 a 2025, e uma queda acumulada de 25% desde 2020, primeiro ano da pandemia de Covid-19.

O recorde registrado na série histórica é de 2017, com mais de 60 mil assassinatos. Depois desse pico, os números caíram em 2018 e 2019, e voltaram a subir em 2020. Desde então, só houve quedas.

Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que houve mudanças nas dinâmicas das facções criminosas, sem tantas guerras por territórios

“Foi um ano em que o crime organizado esteve, digamos assim, mais tranquilo em termos de briga do que anteriormente. Tem políticas públicas também. Estamos perto da eleição e algumas ações na segurança são tomadas. São todos fatores que podem explicar”, afirma.

Silvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), segue a linha de que a diminuição de enfrentamentos entre facções, com a definição de controles em determinados territórios, contribui para que haja menos assassinatos.

“Como regra geral, quedas de mortes intencionais são resultantes de arranjos de facções, milícias e grupos armados”, diz.

Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, lembra que a tendência de queda vem desde antes da pandemia, com a exceção de 2020. Naquele ano, o aumento de assassinatos foi puxado pela região Nordeste.

“É uma tendência de queda que foi inaugurada em 2018 e, de lá para cá, só em um ano tivemos alta. É bom manter e sustentar a queda”, afirma.

Recorde nos feminicídios em 2025

Já o número de feminicídios bateu recorde em 2025: foram 1.470 casos de janeiro a dezembro, conforme os dados do ministério. O total supera os 1.464 registros de 2024, a maior marca até então.

Foram ao menos quatro mulheres mortas por dia no ano passado.

A tipificação de feminicídio foi criada em 2015. O crime ocorre quando uma mulher é assassinada pelo fato de ser mulher.

Em 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma lei que aumentou as penas para quem comete feminicídios, que podem variar de 20 a 40 anos de prisão.

Disparo com revólver 38 em estande de tiro de São Paulo — Foto: Luiz Gabriel Franco/g1

Disparo com revólver 38 em estande de tiro de São Paulo — Foto: Luiz Gabriel Franco/g1

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