Coordenador de futebol em SP é impedido de tomar vacina após registro de 1ª dose em cidade que morou 13 anos atrás

Pedro Smania registrou boletim de ocorrência na polícia após ter ido à uma UBS da Zona Oeste de SP e descobrir o registro de 1ª dose contra a Covid-19 no nome dele em São José dos Campos, no interior. Prefeitura da cidade investiga caso, mas afirma que não há indícios de fraude, mas de erro de digitação.

O coordenador técnico de futebol do time do São Paulo, Pedro Smania, tentou tomar a vacina contra a Covid-19 na quinta-feira (27) em uma UBS da Zona Oeste da capital paulista e descobriu que já existia um registro de que ele tinha tomado a 1ª dose da imunização em outra cidade.

Smania foi a uma UBS perto do centro de treinamento do São Paulo, na Barra Funda, onde foi informado que há 130 quilômetros dali, na cidade de São José do Campos, no interior de SP, já havia um registro da imunização dele, sem o coordenador ter ido à unidade.

“Tomei um susto. Até achei que era uma brincadeira no início e falei: ‘olha querida, eu não tomei a primeira dose da Coronavac. Eu não tomei vacina nenhuma. Vim aqui pra tomar a vacina agora’. Até porquê, em nenhum momento eu tinha motivo para ser vacinado. Tenho 40 anos, não sou e não tenho comorbidade. Fui tomar vacina quando o governo liberou pra mim [profissional de Educação Física]. Daí ela disse: ‘aqui consta que o senhor tomou, não posso dar a vacina pro senhor, porque e preciso justificar a saída da vacina”, afirmou Pedro.

Pelas regras de vacinação do governo paulista, quem trabalha com educação física é profissional da saúde e já pode tomar a vacina contra a Covid-19.

O telefone que constava no cadastro da pessoa que se vacinou no lugar dele, em fevereiro, era da própria unidade de saúde de São José dos Campos.

Na época da 1ª dose que consta no registro, o coordenador nem poderia ser imunizado no estado. Em São Paulo, a categoria dele foi incluída só agora em maio no calendário de vacinação.

Pedro registrou um boletim de ocorrência na polícia, mas, por enquanto, não vai poder se proteger da Covid-19.

A Prefeitura de São José dos Campos diz que o coordenador técnico tomou a vacina contra a febre amarela na cidade em 2008 e, por isso, os dados dele já estavam inseridos no cadastro do município.

Enfermeira aplica vacina em São Paulo com vacinômetro ao fundo. — Foto: Divulgação/GESP

Enfermeira aplica vacina em São Paulo com vacinômetro ao fundo.

Ele confirma que passou uma temporada na cidade 13 anos atrás, mas não se lembrava de ter tomado vacina durante esse período.

A Prefeitura de São José diz que vai investigar o caso mas afirma que não há indícios de fraude ou má fé. A suspeita é de erro de digitação.

“O São Paulo faz dois testes por semana praticamente com todos, mas a chance de contágio é muito alta no ambiente do futebol. A minha grande preocupação é comigo e com os demais que estão aqui. Numa brincadeira dessa, eu posso me contaminar. Olha o tamanho do dano que pode acontecer com todos aqui dentro…”, afirmou Pedro Smania.

Fraudes

Relatos de atestados falsos para furar fila da vacina têm se proliferado nas redes sociais e o G1 flagrou na sexta-feira (28), no Centro de São Paulo, a venda de falsos atestados para furar fila da vacinação ocorrendo à luz do dia em locais movimentados

Para evitar fraudes, a Prefeitura de SP anunciou neste sábado (29) que vai reter cópia da receita de pacientes com comorbidades que tomarem vacina da Covid-19 na cidade a partir desta segunda-feira (31).

“As unidades de saúde irão reter uma cópia dos atestados e receitas médicas de algumas doenças mais comuns, como hipertensão, para que se possa fazer depois uma averiguação da veracidade desses documentos, para que uma eventual fraude seja bloqueada”, disse o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido.

Campanha de alerta

O primeiro-secretário do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), o médico Angelo Vattimo, diz que é importante fazer campanhas de orientação sobre esse assunto e também propor discussões para inibir que pessoas tentem arranjar laudos falsos.

Ele reforça ainda que o laudo falso é vedado pelo Código de Ética e aponta que a atitude antiética não é só do médico, mas também do paciente que pede o documento.

Seis conselhos regionais (SP, GO, PI, PR, RJ e RO) informam ter emitido uma nota alertando sobre o risco de emitir falsos atestados para pessoas sem comorbidade.

Vattimo argumenta que não há registro de qualquer denúncia no estado porque há uma conivência entre quem recebe e quem emite o laudo falso. Além disso, ele diz que os atestados podem ser falsificados e não necessariamente têm participação de médicos.

“O atestado precisa chegar aqui [no conselho]. Não adianta falar. Precisa ter um elemento material. Quem tem o atestado é quem recebeu. E quem recebeu está incorrendo em crime, está se beneficiando. A única alternativa é se alguém roubar o atestado e trouxer aqui. E eu duvido que aconteça isso. Você não tem outro elemento. Você tem uma cumplicidade entre quem pegou o atestado e quem emitiu.”

Apesar do aumento dos relatos, o G1 procurou nesta sexta (28) todos os 27 conselhos regionais de medicina para perguntar o número de denúncias quanto a isso. O resultado em todos os estados: nenhuma denúncia até agora. E, por isso, também não foram abertas sindicâncias nem processos éticos-profissionais sobre o assunto.

Vacinação contra a Covid-19 em Ribeirão Preto, interior de SP  — Foto: Reprodução/EPTV

Vacinação contra a Covid-19 em Ribeirão Preto, interior de SP

Para o médico Gerson Salvador, especialista em infectologia e autor do livro “O pior médico do mundo”, os conselhos regionais deviam agir com mais proatividade.

“Os conselhos têm sido omissos. Na pandemia, a gente também tem visto médicos prescrevendo medicamentos ineficazes e potencialmente tóxicos. Os conselhos não têm nenhuma atitude para orientar práticas éticas das prescrições. Muito pelo contrário. Até relativiza de uma maneira corporativista”, afirma.

O médico também diz que tem ouvido com frequência relatos de colegas de profissão sobre pacientes sem comorbidades que pedem laudos falsos para furar a fila da vacinação da Covid-19. Para ele, trata-se de “uma atitude moralmente condenável, eticamente reprovável e que acaba tirando o lugar da fila de vacinação de quem foi considerado prioritário”.

Ele recomenda que as pessoas denunciem essas situações ao Ministério Público e ao Conselho Regional de Medicina. Para ele, o fato de os critérios de vacinação mudarem de acordo com o município gera uma confusão e também dificulta a fiscalização.

Fonte: G1

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