{"id":1054,"date":"2021-11-17T10:35:36","date_gmt":"2021-11-17T13:35:36","guid":{"rendered":"https:\/\/metropoleemfoco.com.br\/?p=1054"},"modified":"2021-11-17T10:35:37","modified_gmt":"2021-11-17T13:35:37","slug":"minha-aluna-desmaiou-de-fome-professores-denunciam-crise-urgente-nas-escolas-brasileiras","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/metropoleemfoco.com.br\/?p=1054","title":{"rendered":"&#8216;Minha aluna desmaiou de fome&#8217;: professores denunciam crise urgente nas escolas brasileiras"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Estudantes sofrem com desemprego e perda de renda dos pais, orfandade e mudan\u00e7as para casas piores. Jovens tamb\u00e9m est\u00e3o abandonando a escola para trabalhar, dizem educadores.<\/h2>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/kpMiArPdz8vy9RtOINqVjbTOnXY=\/0x0:640x360\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2021\/Z\/H\/hHvh0KQFKZIvRjZjvVYg\/bbc1.jpg\" alt=\"Desmaios por fome e pedidos de doa\u00e7\u00e3o de alimentos tornaram-se rotina nas escolas p\u00fablicas, em meio ao desemprego elevado e avan\u00e7o da inseguran\u00e7a alimentar no pa\u00eds \u2014 Foto: Andr\u00e9 Valente\/BBC Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Desmaios por fome e pedidos de doa\u00e7\u00e3o de alimentos tornaram-se rotina nas escolas p\u00fablicas, em meio ao desemprego elevado e avan\u00e7o da inseguran\u00e7a alimentar no pa\u00eds \u2014 Foto: Andr\u00e9 Valente\/BBC Brasil https:\/\/347c73c7ec303de62b3771d5d15068f9.safeframe.googlesyndication.com\/safeframe\/1-0-38\/html\/container.html<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Essa aluna chegou bem atrasada. Ela bateu na porta da sala de aula, eu abri e notei que ela n\u00e3o estava bem, mas n\u00e3o consegui entender o porqu\u00ea. Passei \u00e1lcool na m\u00e3o dela e senti a m\u00e3o muito gelada, em um dia em que n\u00e3o estava frio para justificar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela sentou e abaixou a cabe\u00e7a na mesa. Eu estranhei e chamei ela \u00e0 minha mesa. Ela veio e eu perguntei se ela estava bem. Ela fez com a cabe\u00e7a que estava, mas com aquele olhinho de que n\u00e3o estava. Perguntei se ela tinha comido naquele dia, ela disse que n\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Fui pegar algo para ela na minha mochila \u2014 porque eu sempre levo um biscoitinho ou uma fruta para mim mesma. Mas n\u00e3o deu tempo. Ela desmaiou em sala de aula.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O relato \u00e9 de uma professora da rede municipal do Rio de Janeiro. A aluna tem 8 anos, \u00e9 negra e estuda em uma escola localizada em um complexo de favelas na Zona Norte carioca. O epis\u00f3dio aconteceu em setembro deste ano.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu fiquei realmente sensibilizada por essa situa\u00e7\u00e3o&#8221;, conta a professora. &#8220;Por que \u00e9 isso: a fome. Uma fome que a crian\u00e7a n\u00e3o sabe expressar a urg\u00eancia. E que envolve muitas vezes a vergonha. Para ela \u00e9 algo humilhante, por isso ela n\u00e3o consegue expressar.&#8221; https:\/\/tpc.googlesyndication.com\/safeframe\/1-0-38\/html\/container.html<\/p>\n\n\n\n<p>O caso ocorrido na escola do Rio de Janeiro n\u00e3o \u00e9 isolado. Professores da rede p\u00fablica de todo o Brasil relatam epis\u00f3dios semelhantes, em um momento em que o pa\u00eds soma 13,7 milh\u00f5es de desempregados e a infla\u00e7\u00e3o de alimentos consumidos em domic\u00edlio acumula alta de mais de 13% em 12 meses, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica).<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo estudo da Universidade Livre de Berlim, a inseguran\u00e7a alimentar grave \u2014 como \u00e9 chamada a fome na linguagem t\u00e9cnica \u2014 atingia 15% dos domic\u00edlios brasileiros em dezembro de 2020. Esse percentual chegava a 20,6% nos lares com crian\u00e7as e jovens de 5 a 17 anos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Veja no v\u00eddeo abaixo que a pandemia aumentou o n\u00famero de brasileiros em inseguran\u00e7a alimentar grave:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s02.video.glbimg.com\/x240\/9409569.jpg\" alt=\"Pandemia faz crescer n\u00famero de brasileiros em inseguran\u00e7a alimentar grave\" title=\"Pandemia faz crescer n\u00famero de brasileiros em inseguran\u00e7a alimentar grave\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Pandemia faz crescer n\u00famero de brasileiros em inseguran\u00e7a alimentar grave<\/p>\n\n\n\n<p>Os professores ouvidos pela BBC News Brasil relatam que os alunos com fome sofrem com perda de motiva\u00e7\u00e3o e apresentam epis\u00f3dios de agressividade com colegas e educadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Na volta \u00e0s aulas presenciais, ap\u00f3s o per\u00edodo de ensino \u00e0 dist\u00e2ncia for\u00e7ado pela pandemia, os estudantes enfrentam os efeitos da perda de emprego e renda dos pais e do falecimento de av\u00f3s que muitas vezes sustentavam a fam\u00edlia com suas aposentadorias.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme os professores, jovens est\u00e3o abandonando os estudos para trabalhar e ajudar suas fam\u00edlias na gera\u00e7\u00e3o de renda e crian\u00e7as moradoras de favelas est\u00e3o em alguns casos mudando para regi\u00f5es ainda mais prec\u00e1rias das comunidades, devido ao custo do aluguel. https:\/\/347c73c7ec303de62b3771d5d15068f9.safeframe.googlesyndication.com\/safeframe\/1-0-38\/html\/container.html<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio de crise social que bate \u00e0 porta das escolas, os educadores fazem o que podem, organizando coletas de alimentos e direcionando as crian\u00e7as e fam\u00edlias que est\u00e3o passando por necessidade \u00e0 rede p\u00fablica de assist\u00eancia social.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Procuro manter meu cora\u00e7\u00e3o sempre firme, n\u00e3o cair em desespero&#8221;, diz uma professora de l\u00edngua portuguesa na rede estadual do Paran\u00e1, com quase 30 anos de profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente respira fundo e vai fazer campanha para cesta b\u00e1sica, para coleta de alimentos, para mant\u00ea-los em sala de aula. Eu me sinto \u00e0s vezes cansada, mas me sinto na obriga\u00e7\u00e3o de me manter firme e fazer algo por essas crian\u00e7as, para que eles sintam que podem contar conosco, que n\u00e3o seremos mais um a abandon\u00e1-los.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A BBC News Brasil optou por manter todos os entrevistados an\u00f4nimos, como uma forma de preservar a privacidade das crian\u00e7as citadas em seus relatos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Agrediu colega, xingou professora: era fome<\/h2>\n\n\n\n<p>Um conselheiro tutelar de um bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro foi chamado para atender o caso de uma menina de 7 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Havia um conflito dentro da escola, um nervosismo muito grande de uma crian\u00e7a sem hist\u00f3rico de agressividade&#8221;, conta o conselheiro tutelar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela havia agredido uma colega, depois desafiou a professora e, por fim, acabou tentando agredir a dire\u00e7\u00e3o. A escola nos chamou para conversar com essa crian\u00e7a e sua fam\u00edlia, para saber se se tratava de uma reprodu\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia [quando uma crian\u00e7a agredida reproduz a viol\u00eancia que sofre]. Mas, conversando com essa crian\u00e7a, ela nos relata vontade de comer.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/4dsY34fv5XyCWpIr5wyvlO8QFnU=\/0x0:640x360\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2021\/0\/K\/BOZKYpStu7WB0BAke34A\/bbc2.jpg\" alt=\"'Muitas vezes, quando falamos em fome, as pessoas entendem que a pessoa n\u00e3o come nada. Mas a fome n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, s\u00e3o necessidades para o desenvolvimento da crian\u00e7a que n\u00e3o est\u00e3o sendo atendidas', diz conselheiro tutelar do Rio de Janeiro \u2014 Foto: Andr\u00e9 Valente\/BBC Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8216;Muitas vezes, quando falamos em fome, as pessoas entendem que a pessoa n\u00e3o come nada. Mas a fome n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, s\u00e3o necessidades para o desenvolvimento da crian\u00e7a que n\u00e3o est\u00e3o sendo atendidas&#8217;, diz conselheiro tutelar do Rio de Janeiro \u2014 Foto: Andr\u00e9 Valente\/BBC Brasil https:\/\/tpc.googlesyndication.com\/safeframe\/1-0-38\/html\/container.html<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o conselheiro tutelar, o caso da menina \u00e9 comum a muitas fam\u00edlias moradoras de bairros pobres: sua fam\u00edlia \u2014 de sete pessoas, vivendo em um domic\u00edlio de dois c\u00f4modos \u2014 estava toda desempregada, vivendo com um benef\u00edcio do Bolsa Fam\u00edlia como \u00fanica fonte de renda.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 que essa crian\u00e7a n\u00e3o come nada, ela tem acesso \u00e0 merenda, a um almo\u00e7o. Mas a alimenta\u00e7\u00e3o a que ela tem acesso \u00e9 irregular e insuficiente para esse n\u00facleo familiar. \u00c9 uma crian\u00e7a que tem a comida contada, \u00e0s vezes uma vez s\u00f3 no dia e sem um prato rico em nutrientes, em sabores&#8221;, explica o profissional.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>&#8220;Muitas vezes, quando falamos em fome, as pessoas entendem que a pessoa n\u00e3o come nada. Mas a fome n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, s\u00e3o necessidades para o desenvolvimento da crian\u00e7a que n\u00e3o est\u00e3o sendo atendidas. Na realidade, todo o n\u00facleo familiar est\u00e1 passando fome. A verdade \u00e9 essa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sem caf\u00e9 da manh\u00e3, nem almo\u00e7o, desmaiou na educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma professora de f\u00edsica e matem\u00e1tica de Sumar\u00e9, no interior de S\u00e3o Paulo, viu um de seus alunos desmaiar de fome na aula de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o foi o primeiro caso. Com a volta \u00e0s aulas presenciais, depois da pandemia, temos observado v\u00e1rios casos de alunos passando por necessidade. Casos de fome mesmo, de que o \u00fanico alimento que o aluno tem \u00e9 na escola&#8221;, conta a professora.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nesse caso, n\u00f3s percebemos na educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, porque o aluno desmaiou na quadra. A\u00ed, conversando, ficamos sabendo que ele ainda n\u00e3o tinha se alimentado naquele dia e j\u00e1 era o per\u00edodo da tarde&#8221;, relata a educadora, explicando que, na escola estadual, h\u00e1 apenas uma refei\u00e7\u00e3o por turno, na hora do intervalo (10h para os alunos da manh\u00e3 e 16h para os da tarde).<\/p>\n\n\n\n<p>O menino tem outros irm\u00e3os. E a m\u00e3e dele, que cuida das crian\u00e7as sozinha e mora de aluguel, estava desempregada. https:\/\/tpc.googlesyndication.com\/safeframe\/1-0-38\/html\/container.html<\/p>\n\n\n\n<p>A professora observa que as crian\u00e7as em situa\u00e7\u00e3o de priva\u00e7\u00e3o t\u00eam dificuldade de aprendizado.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;A crian\u00e7a com fome n\u00e3o consegue se concentrar. Falta energia nela. Crian\u00e7as normalmente t\u00eam muita energia, ent\u00e3o voc\u00ea percebe a apatia&#8221;, diz a educadora.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ela conta que, ap\u00f3s o primeiro epis\u00f3dio de um aluno que passou mal por fome, as professoras se organizaram para recolher doa\u00e7\u00f5es. &#8220;Conseguimos muito alimento e passamos a distribuir \u00e0s fam\u00edlias. Voc\u00ea v\u00ea a diferen\u00e7a, o aluno vem mais ativo, com mais energia, e as m\u00e3es ficam muito agradecidas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;No caso do aluno que desmaiou, fomos \u00e0 casa da fam\u00edlia levar o que arrecadamos. Chegando l\u00e1, a m\u00e3e estava extremamente magra, muito abaixo do peso, porque ela estava tirando o pouco que tinha dela para dar para as crian\u00e7as. Ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea a gratid\u00e3o da pessoa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Deixando de estudar para trabalhar<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/h_aRExr1b_wBPVK06ZlYmkPS8AU=\/0x0:640x360\/984x0\/smart\/filters:strip_icc()\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2021\/o\/L\/bsOvlOSpOTDLddf6Uz8w\/bbc3.jpg\" alt=\"'A crian\u00e7a com fome n\u00e3o consegue se concentrar. Falta energia nela', diz professora de Sumar\u00e9, no interior de S\u00e3o Paulo \u2014 Foto: Andr\u00e9 Valente\/BBC Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8216;A crian\u00e7a com fome n\u00e3o consegue se concentrar. Falta energia nela&#8217;, diz professora de Sumar\u00e9, no interior de S\u00e3o Paulo \u2014 Foto: Andr\u00e9 Valente\/BBC Brasil<\/p>\n\n\n\n<p>A educadora afirma que outra preocupa\u00e7\u00e3o das professoras \u00e9 com o aumento da evas\u00e3o escolar entre os alunos um pouco mais velhos, que deixam o estudo para ajudar suas fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste cen\u00e1rio, o fim do aux\u00edlio emergencial em outubro e a incerteza quanto ao futuro do Bolsa Fam\u00edlia, em transi\u00e7\u00e3o tumultuada para Aux\u00edlio Brasil, \u00e9 motivo de ang\u00fastia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Todo mundo est\u00e1 muito preocupado, principalmente as fam\u00edlias&#8221;, diz a professora de Sumar\u00e9. https:\/\/tpc.googlesyndication.com\/safeframe\/1-0-38\/html\/container.html<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;J\u00e1 estamos tendo uma evas\u00e3o muito grande de alunos, porque a prioridade deles \u00e9 trabalhar e ajudar a levar o sustento para casa. N\u00e3o \u00e9 mais estudar, porque a fome \u00e9 uma necessidade hoje&#8221;, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A partir dos 13, 14 anos est\u00e1 acontecendo essa evas\u00e3o, que \u00e9 ainda mais grave no Ensino M\u00e9dio. Acredito que, com o fim do aux\u00edlio emergencial, isso pode aumentar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O aux\u00edlio emergencial foi pago a mais de 39 milh\u00f5es de fam\u00edlias em 2021, j\u00e1 o novo Aux\u00edlio Brasil deve atender 17 milh\u00f5es de fam\u00edlias em dezembro, conforme a expectativa do governo. O Bolsa Fam\u00edlia, extinto em outubro, atendia 14,6 milh\u00f5es, segundo o Minist\u00e9rio da Cidadania.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, embora o Aux\u00edlio Brasil deva atingir um p\u00fablico maior do que o Bolsa Fam\u00edlia \u2014 caso de fato o governo consiga zerar a fila do programa, como planeja \u2014, o n\u00famero de assistidos ainda assim ser\u00e1 menor do que o de benefici\u00e1rios do aux\u00edlio emergencial pago em 2020 e 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 triste o aluno ter que deixar a escola para poder trabalhar, n\u00e3o conseguir conciliar&#8221;, lamenta a professora de f\u00edsica e matem\u00e1tica, acrescentando que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 agravada pelo encerramento do turno noturno em tr\u00eas das cinco escolas de sua regi\u00e3o e de cursos de EJA (Educa\u00e7\u00e3o para Jovens e Adultos) no munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 devastador, porque o aluno est\u00e1 deixando para tr\u00e1s uma parte da vida dele que \u00e9 de extrema import\u00e2ncia. \u00c9 um aluno que poderia ir para a faculdade e pode ser que acabe n\u00e3o indo. Poderia fazer outras coisas da vida e acabe n\u00e3o fazendo&#8221;, diz a professora, ressaltando como a necessidade imediata de renda das fam\u00edlias acaba comprometendo o futuro do jovem.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Criados pela av\u00f3, ficaram \u00f3rf\u00e3os na pandemia<\/h2>\n\n\n\n<p>A professora de l\u00edngua portuguesa da rede estadual do Paran\u00e1 chama aten\u00e7\u00e3o para um outro aspecto da realidade das escolas na volta \u00e0s aulas presenciais depois da pandemia: um grande n\u00famero de alunos que ficaram \u00f3rf\u00e3os de pais ou av\u00f3s e passaram a viver sob cuidado de outros parentes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tenho um aluno do 7\u00ba ano e a irm\u00e3 dele est\u00e1 no Ensino M\u00e9dio no mesmo col\u00e9gio. Eles foram criados pela av\u00f3 e, no ano passado, ela faleceu devido \u00e0 Covid e eles simplesmente ficaram \u00f3rf\u00e3os&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eles n\u00e3o t\u00eam nenhum recurso, ficaram na casa de parentes. E n\u00f3s temos v\u00e1rios casos assim, s\u00e3o muitos casos por turma. A escola est\u00e1 tentando monitorar para ver se essas crian\u00e7as est\u00e3o bem, quem ficou respons\u00e1vel por elas e se elas contam com alguma rede de prote\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A professora da rede municipal do Rio de Janeiro cuja aluna desmaiou em sala de aula relata tamb\u00e9m a precariza\u00e7\u00e3o na situa\u00e7\u00e3o de moradia de muitos alunos, diante da perda de renda dos pais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A favela em si \u00e9 um lugar vulner\u00e1vel, mas dentro dela tem lugares onde realmente n\u00e3o tem estrutura nenhuma, n\u00e3o tem saneamento b\u00e1sico, nada&#8221;, diz a professora da Zona Norte carioca.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Muitos alunos que antes moravam na favela em locais considerados razo\u00e1veis tiveram que se mudar para esses locais mais vulner\u00e1veis, porque l\u00e1 n\u00e3o paga aluguel, n\u00e3o paga nada. Mas as casas s\u00e3o de madeira, em lugares muito complicados, como barrancos. Ent\u00e3o est\u00e1 havendo uma migra\u00e7\u00e3o interna, dentro da pr\u00f3pria favela, de fam\u00edlias que n\u00e3o estavam conseguindo se manter nos lugares por conta dessa crise econ\u00f4mica toda.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;Solu\u00e7\u00e3o do problema est\u00e1 al\u00e9m do nosso alcance&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio de pauperiza\u00e7\u00e3o dos alunos na volta \u00e0s aulas presenciais, os professores fazem o que podem para tentar minimizar o sofrimento dos estudantes em dificuldade.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma professora de gin\u00e1stica acrob\u00e1tica de um centro p\u00fablico de treinamento desportivo localizado em uma comunidade carente do Distrito Federal conta que a doa\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas se tornou rotina no local.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Teve o caso de uma aluna que come\u00e7ou a passar mal&#8221;, conta a professora de gin\u00e1stica. &#8220;Encaminhamos \u00e0 assist\u00eancia social e essa crian\u00e7a, de 10 anos, contou que estava com fome, que n\u00e3o tinha jantado no dia anterior, nem tomado caf\u00e9 da manh\u00e3 naquele dia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A crian\u00e7a recebeu um lanche a mais e a m\u00e3e foi chamada para uma conversa com a psic\u00f3loga. Essa m\u00e3e relatou que estava sem o que comer em casa, ent\u00e3o come\u00e7amos a distribuir cesta b\u00e1sica para a fam\u00edlia&#8221;, diz a professora, acrescentando que cresceu no per\u00edodo recente o n\u00famero de crian\u00e7as que buscam o centro de treinamento n\u00e3o pelo esporte, mas pelo lanche do intervalo, e como uma alternativa de cuidado para m\u00e3es que precisam procurar emprego.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma professora de Rio Claro, no interior de S\u00e3o Paulo, relata um caso semelhante.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Dentro do processo de tutoria, em que cada aluno \u00e9 acompanhado de perto por um professor, uma aluna de 13 anos, com dois irm\u00e3os menores e uma irm\u00e3 bebezinha, relatou que precisava de ajuda, que precisava de alimento, porque n\u00e3o tinha comida dentro da casa dela&#8221;, conta a professora de l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A equipe de professores se mobilizou, fizemos uma vaquinha e um dos professores foi ao mercado e fez uma compra. Eu levei at\u00e9 a casa dela, uma casa bem humilde. A recep\u00e7\u00e3o foi de gratid\u00e3o, a m\u00e3e depois nos escreveu agradecendo a ajuda.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A professora de Rio Claro conta que, apesar da mobiliza\u00e7\u00e3o dos professores, h\u00e1 um sentimento de impot\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise social que se reflete nas escolas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 uma tristeza profunda, uma preocupa\u00e7\u00e3o gigante. H\u00e1 uma vontade de tentar fazer algo por essas pessoas, a gente tenta se mobilizar dentro das nossas possibilidades, mas sabemos que n\u00e3o \u00e9 fazendo uma cesta b\u00e1sica hoje que a gente resolve o problema dessa fam\u00edlia&#8221;, diz a educadora. &#8220;A gente atende uma necessidade emergencial, mas resolver o problema \u00e9 uma quest\u00e3o muito maior, uma quest\u00e3o social e pol\u00edtica, que vai al\u00e9m do nosso alcance.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8216;N\u00e3o existe desenvolvimento infantil pleno com barriga vazia&#8217;<\/h2>\n\n\n\n<p>O conselheiro tutelar da Zona Oeste do Rio de Janeiro avalia que a fome das crian\u00e7as nas escolas \u00e9 um sintoma da aus\u00eancia do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Estado n\u00e3o est\u00e1 cumprindo com sua parte em garantir n\u00e3o s\u00f3 renda, mas que a economia gere empregos para essas fam\u00edlias&#8221;, avalia o conselheiro tutelar, que relata um aumento no n\u00famero de atendimentos do conselho durante a pandemia, devido ao maior n\u00famero de casos de viol\u00eancia, em decorr\u00eancia da conviv\u00eancia das fam\u00edlias em espa\u00e7os insuficientes e de problemas estruturais, como o estresse causado pela fome ou pelo desemprego.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o existe desenvolvimento infantil completo com barriga vazia. A fome n\u00e3o atinge apenas o estado emocional, ela \u00e9 da carne, \u00e9 do corpo. \u00c9 muito dif\u00edcil pensarmos que uma crian\u00e7a vai ter acesso a direitos, conseguir ter uma vida plena, se ela est\u00e1 sentindo fome. O acesso \u00e0 cultura, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao lazer, tudo isso \u00e9 impactado quando essa crian\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 tendo o m\u00ednimo, que \u00e9 se alimentar&#8221;, diz o profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso vai afetar n\u00e3o s\u00f3 o desenvolvimento pessoal dessa crian\u00e7a \u2014 sua autoestima, seus valores \u2014 mas a forma como ela se relaciona com a sociedade&#8221;, avalia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;S\u00e3o crian\u00e7as que, por causa da fome, est\u00e3o tendo sentimentos e aprendendo sensa\u00e7\u00f5es muito doloridas e muito cru\u00e9is para o tempo delas nessa vida. Como vamos pedir que essa crian\u00e7a tenha concentra\u00e7\u00e3o dentro da escola, se a barriga dela est\u00e1 roncando?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: G1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudantes sofrem com desemprego e perda de renda dos pais, orfandade e mudan\u00e7as para casas piores. 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